sexta-feira, 10 de maio de 2013

Francisco Perna Filho - crônica


Ponte
Ponte Fernando Henrique Cardoso - Palmas - Foto by Fernanda Alves

O bonito disso tudo, é tudo isso




Para Lúcio Alves (in memorian)



Sempre gostei de cidades: de seus becos, de suas esquinas, suas praças, da confluência de suas ruas, do barulho dos seus carros, da algaravia das vozes nas feiras. Sempre gostei das luzes, dos bares, teatros, cinemas, dos sons e cheiros urbanos. Das histórias, causos e lendas, da paisagem noturna com seus bêbedos e prostitutas. Sempre gostei dos loucos, dos literatos, dos mentirosos, da correria dos seus transeuntes. Cada um traz uma cidade ilusória, caleidoscópica, formada na junção de suas experiências, de cada passagem, de cada moradia. Traz consigo um montão de lembranças, signos, sonhos não realizados, matéria com a qual vai edificando seus abrigos.

Vivi em algumas delas: Miracema, minha terra natal, São Luís do Maranhão, Brasília e Goiânia; viajei por tantas outras, e, de cada uma, sorvi um pouco das ruas, semáforos, paredes, casarões, pontos de ônibus, igrejas, cemitérios, favelas, lembranças com as quais venho compondo a minha nova cidade, Palmas, nos meus cinco anos aqui, onde cumpro os meus dias, conheço pessoas, divido minhas experiências e crio os meus filhos. Palmas ainda engatinha, tem os seus encantos, mas também a sua feiura, seus guetos, sua pobreza, suas quadras e praças abandonadas, suas praias mal cuidadas e a arrogância de um trânsito que tem ceifado muitas vidas. Apesar disso, abriga gente de todos os lugares, povos de terras longínquas, um quê de Cosmópolis. Aqui vivo, nesta ampla cidade, com suas esquinas e becos ilusórios, mas de gente real, que vive, trabalha, ama, briga, canta, dança e pinta o sete.

Palmas não é preconceituosa, é acolhedora, aqui todos os credos e raças vivem em harmonia, passeiam destemidamente. Aqui o céu é pródigo, o ar limpo, o verde encanta, nas ruas, parques e, claro, na serra, um belo cinturão verde, que parece nos olhar de cima, nos proteger. Do outro lado, o lago, suas praias, seus encantos, seus barcos e um sol que brota tão cedo e morre em encantamento.

Nesta linda planície estão muitas outras cidades, fundidas em uma só, ficcionais ou não, eu as trago para cá e, com elas, componho a minha Palmas imaginária na contemplação da real, Comala, Macondo, a velha Paris e São Petersburgo. Por aqui passeiam Juan Rulfo, Gabriel Garcia Márquez, Dostoievski, Machado de Assis, Baudelaire, Rimbaud, Gregório de Matos Guerra e tantos outros. 

Palmas tem seus encantos e suas curiosidades, uma gastronomia de encher a boca, sabores nortistas, nordestinos, sulistas. Aqui, pelas minhas contas, proporcionalmente é a cidade que mais abriga canhotos, isto mesmo, desde que aqui chegamos, eu e minha esposa temos feito tal observação: talvez porque também sejamos canhotos, incluindo o meu filho. 

Mas o que me encanta mesmo, de verdade, é a sua gente, a mistura desse povo que aqui vive, acolhido pela força de uma cultura secular, a nossa cultura tocantinense, com seus cantos, seus ritos, suas tradições. O bonito disso tudo é o olhar dessa gente, que acorda cedo, que luta, trabalha e se diverte. O que me encanta em Palmas é a esperança dessas pessoas que, apesar de tantas mazelas, insistem em construir um dos lugares mais agradáveis para se viver. Para falar a verdade, o bonito disso tudo, é tudo isso.