quinta-feira, 11 de outubro de 2012

José Fernandes - Crônica




MONTEIRO LOBADO – VÍTIMA DO ANALFABETISMO FUNCIONAL



Simplesmente de estarrecer a reportagem da revista Bravo e a conseqüente en-trevista de Ana Claudia Barros, em que pretendem provar que Monteiro Lobato era realmente racista, corroborando a estultícia iniciada a partir de Conselho Federal de Educação na cassa a Pedrinho. Acredito que toda e qualquer afirmação sobre o racismo tem de levar em consideração o contexto cultural e, sobremodo, o filosófico dominante à época e, não, sonhar-se segundo os malditos preconceitos nascidos da mesquinhez e da demagogia de esquina e de esgoto. Sem se conhecer nada da filosofia positivista, a maioria das obras literárias produzidas no final do século XIX e início do XX teriam de ser banidas da cultura brasileira, segundo a ótica míope cega do analfabetismo funcional que infesta e infecta este momento histórico. Hyppolite Taine já dizia que “Os documentos históricos não são senão índices por meio dos quais é preciso reconstituir o individuo visível” e, acrescentamos, a cultura visível e, sobretudo, a invisível, a ser enxergada naquele quarto escuro em que se busca uma cartola preta que não está lá, mas que é encontrada pelo verdadeiro crítico de arte. 

Não sem razão, Claude Bernard exigia que “os fatos fossem comparativamente determinados”. Comparativamente, segunda o pensamento filosófico e cientifico do momento histórico! Nos tempos de ontem eram uns, nos de hoje, outros. Portanto, re-querem que os vejamos naquele contexto que marcou as obras dos realistas, dos naturalizas e dos pré-modernistas e, não, querer julgá-los com a filosofia de hoje, se é que existe alguma além do analfabetismo funcional. Taine nos mostra que “a cada momento pode-se considerar o caráter de um povo como o resumo de todas suas ações de todas as suas sensações precedentes, quer dizer como uma quantidade e como um peso, não infinito, pois que toda coisa na natureza é limitada, mas desproporcional ao resto e quase impossível de se erguer, pois cada minuto de um passado quase infinito tem contribuído para pesar, e que, por elevar a balança, necessitará acumular em outro plano um número de ações e de sensações ainda maiores.” Além disso, só se pode julgar qualquer posicionamento relativo à mestiçagem e à eugenia segundo o pensamento de Spencer, corrente naquele momento histórico, quando afirma que “O atavismo é o nome que se dá ao retorno aos traços ancestrais, provado por fatos numerosos e variados. Nas galerias de quadros de velhas famílias, e sobre mesas de bronze monumentais conservadas em igrejas vizinhas, vemos freqüentemente tipos de fisionomia que, de tempos em tempos, se repetem nos membros destas famílias. Todo mundo pode perceber que certas doenças constitucionais, como gota ou a loucura, após haver desaparecido em uma geração, se mostra na seguinte.” Ademais, consoante o pensamento de Comte, o homem carrega instintos que o fazem inferiores aos animais. Por isso, recriminava as “idéias exageradas da importância do homem no universo, que a filosofia teológica faz nascer e que a primeira influência da filosofia positiva destrói para sempre”. Era assim que se viam as transformações por que o homem passa, segundo a ótica do evolucionismo. Embora a ciência tenha evoluído, e a filosofia mudado o foco para a existência e, hoje, para a matéria, para o que os gregos chamam “to semeron melei moi”, ainda vemos tipos que revelam aquela “forma retardatária de troglodita sanhudo aprumando-se com o mesmo arrojo com que, nas velhas idades, vibrava o machado de sílex à porta das cavernas” Isso é racismo ou são as diferenças resultantes de fatores genéticos e, sobretudo, culturais que levaram Darwin a definir determinados cruzamentos humanos como subespécie?

O fenômeno da mestiçagem vista naquela época, Nigri e Cláudia, seguia a postura adotada por Claude Bernard, “Se um fenômeno natural é dado, nunca um experimentador poderá postular que haja uma variação na expressão do fenômeno sem que, ao mesmo tempo, tenham sobrevindo condições novas na sua manifestação. Além disso, ele tem a certeza, a priori, de que essas variações são determinadas por relações rigorosas e matemáticas.” Ora, seguindo o mesmo principio positivista por que pautava a postura de Lobato, Euclides da Cunha assim registra sua percepção da mestiçagem em “Os sertões”: A mistura de raças mui diversas e, na maioria dos casos, prejudicial. Ante as conclusões do evolucionismo, ainda quando reaja sobre o produto o influxo de uma raça superior, despontam vivíssimos estigmas da inferior. A mestiçagem extremada é um retrocesso. O indo-europeu, o negro e o brasílio-guarani ou o tapuia, exprimem estádios evolutivos que se fronteiam, e o cruzamento, sobre obliterar as qualidades preeminentes do primeiro, é um estimulante à revivescência dos atributos primitivos dos últimos. De sorte que o mestiço – traço de união entre as raças, breve existência individual em que se comprimem esforços seculares – é, quase sempre, um desequilibrado. Foville compara-os, de um modo geral, aos histéricos. Mas o desequilíbrio nervoso em tal caso é incurável: não há terapêutica para este embater de tendências antagonistas de raças repentinamente aproximadas, fundidas num organismo isolado.”

Se formos adotar a perspectiva cega desses sábios plantonistas, já criticada por Saramago em “O tratado da cegueira”, ainda agravada por forte tiflose de fanatismo, criador de preconceitos, Euclides da Cunha seria mais racista que Lobato. Acho que um pouco de conhecimento faz bem para situar o pensador na visão de mundo de seu tempo. Veni Creator Spiritus, mentes Negri et Claudiae visita! Até o genitivo se adéqua aos sábios de tamancos altos! A pior coisa desse mundo é uma cultura genitiva, como a de quem se mete a escrever sobre assunto de que não entende, pois nunca chega ao nominal, ao nominativo! 

– Bravo, Professor! Será que ainda haverá alguém a atacar Monteiro Lobato sem ler os filósofos positivistas?


– Sei, não, seu Ângelo, em um país carnaval composto, em sua maioria, por pessoas carnavais, tudo é possível! Miserere nobis,
Domine!