sábado, 25 de agosto de 2012

Federico Garcia Lorca - Poema

 
Alma ausente


Não te conhece o touro nem a figura,
nem cavalos nem formigas de tua casa.
Não te conhece a criança nem a tarde
porque morreste para sempre.

    Não te conhece o dorso desta pedra,
nem o negro cetim onde te afliges.
Não te conhece tua lembrança muda
porque morreste para sempre.

     O outono virá com seus búzios
uva de névoa e montes agrupados.
Mas ninguém desejará olhar teus olhos
porque morreste para sempre.

     Porque morreste para sempre,
como todos os mortos da Terra,
como todos os mortos esquecidos
num montão de cães exterminados.

     Ninguém mais te conhece. Mas eu te canto.
Eu canto para breve teu perfil, tua graça.
A madurez insigne do teu pensamento.
Tua apetência de morte e o gosto de sua boca.
A tristeza que sentiu tua intrépida alegria.

      Tardará muito a nascer, se é que nasce,
um andaluz tão claro, tão rico de aventura.
Eu canto sua elegância com palavras que lamentam
e recordo uma brisa triste entre oliveiras.


Tradução de Dora Ferreira da Silva
Imagem retirada da Internet: ausente