quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Lêdo Ivo - Poema



Descoberta Do Inefável

A Lêda


Sem o sublime, que é o poeta? Sem o inefável, 
como pode louvar, não traindo a si mesmo, 
a plena e estranha juventude da moça a quem ama? 
Que é o poeta, que imita as marés,
sem adquirir com o tempo uma serenidade de coisa sempre nua 
como se as estrelas estivessem caminhando governadas 
pelo seu riso 
e seus braços agitassem as árvores feridas pelo clarão da lua?

Sem que seu canto suba até os céus, sufocante música da terra, 
que é o poeta?
Libertado estou quando canto. E quero
que minha respiração oriente a vontade das nuvens 
e meu pensamento de amor se misture ao horizonte. 
Cantando, quero outubro, gosto de lágrima, salsugem, 
no instante anterior ao despertar, folha voando.

Sem o inefável, que dura sempre, sem permanecer, 
como conseguirei louvar essa moça a quem amo 
e que nasce em minha lembrança plena como a noite 
e triunfante como uma rosa que durasse eternamente 
e não se limitasse à glória de um dia?
Sem o inefável, que valoriza as mãos e faz o Amor voar, 
não poderei descer de repente 
ao inferno de seu corpo nu.

O sobrenatural ainda existe. E não seremos nós 
que alteraremos a indizível ordem das coisas 
com as nossas mãos que poderão ficar imóveis 
em pleno amor, diante do corpo amado.

É inútil pensar que os anjos morreram
ou se despaisaram, buscando outros lugares.
Eles ainda estão, unidade admirável do Dia e da Noite, 
entre as nuvens e as casas em que moramos.

Repentinamente, as vozes da infância nos chamam para a feérica viagem 
e lembram que podemos fugir para o longe guardado ainda 
no sempre. 
Então, nossas necessidades não se reduzem apenas a comer, 
dormir e amar. 
Temos necessidade de anjos, para ser homens.
Temos necessidade de anjos, para ser poetas.

Vem, incontável música, e anuncia
(ao poeta e ao homem, humilde unidade) 
a ressurreição diária dos anjos.
Restaura em mim a certeza de que a folha voando é seu indomável divertimento 
pois às vezes sinto que meu primeiro verso foi murmurado talvez 
sem que eu soubesse, por um anjo 
perturbado com o meu ar desesperado de papel em branco.

Não é a manhã, depositando a semente de alegria no coração 
dos homens. 
Não é a vida, cântico triunfal descendo sobre as almas. 
Não é o poeta, subindo pelos andaimes de carne da lembrança 
de uma mulher.

São os anjos, que vieram ligar-nos mais uma vez 
à ordem eterna e, à anunciação.
Não nos libertaremos jamais desses anjos 
feitos de terra e mar, celestes criaturas 
que deixam cair em nós o sol da harmonia. 

É inútil matar os anjos.
Eles são invisíveis e traiçoeiros.
De repente, quando nos sentimos seguros, já não somos 
os consumidores de instantes, e estamos 
entre o Dia e a Noite, no umbral 
de uma eternidade vigiada pelos anjos.