sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Joaquim Cardozo - Poema

 
FIGURAS DO VENTO



Figuras do vento
Nos ares divinos
São finos cabelos
Na luz. Movimento
De puras miragens,
Imagens, modelos
De formas vazias;
São asas difusas,
São vôos imensos,
Perdidos no espaço
Por noites e dias.
São ventos profanos
Rompendo, mugindo,
Lavrando no mar;
São ventos lavrando,
São bois de charrua,
São gênios que ceifam
Searas na lua
E animam sementes
Que irão germinar.
São ventos feridos,
São ventos antigos,
Saudades de amigos,
Lembranças, rumores;
São ventos irados
De pele gelada
Batendo em meu rosto,
Figure porte absence et présence. . .
Pascal
Marchando em rajada,
Rufando tambores.
São ventos, são vozes,
São queixas veladas
Nos vales de rosa,
Nos lagos de aurora
Nos golfos de mel;
Às vezes as vozes
São mágoas passadas
E às vezes soturnas
Nas furnas rugindo
Encerram mistérios
Ungidas, sagradas
De sombra e de fel.
No entanto que importa
Que o vento que passa
Segredos me faça
De histórias bem feias
De fadas somente
Contadas a mim!
Eu quero é dormir
No frio das águas
Nos braços das algas
No amor das sereias
Dos mares sem fim.

1945


Imagem retirada da Internet: ao vento