quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Cecília Meireles - Poema


Ísis

 
E diz-me a desconhecida:
"Mais depressa! Mais depressa!
"Que eu vou te levar a vida! . . .
 
"Finaliza! Recomeça!
"Transpõe glórias e pecados! . . ."
Eu não sei que voz seja essa
 
Nos meus ouvidos magoados:
Mas guardo a angústia e a certeza
De ter os dias contados . . .
 
Rolo, assim, na correnteza
Da sorte que se acelera,
Entre margens de tristeza,
 
Sem palácios de quimera,
Sem paisagens de ventura,
Sem nada de primavera . . .
 
Lá vou, pela noite escura,
Pela noite de segredo,
Como um rio de loucura . . .
 
Tudo em volta sente medo . . .
E eu passo desiludida,
Porque sei que morro cedo . . .
 
Lá me vou, sem despedida . . .
Às vezes, quem vai, regressa . . .
E diz-me a Desconhecida:
 
"Mais depressa" Mais depressa" . . .