domingo, 3 de junho de 2012

Raimundo Célio Pedreira - Crônica

                                                                                      Foto by Dilton Mascarenhas
VELO



Sempre que o canoeiro pendura o remo na despensa de sua casa, as margens desistem dos ribeirinhos (...) É que escreveram uma sentença de morte quase sem testemunhas, sepultando um rio em seu leito. Planejaram mesmo um suave lago, fizeram-no afogando a memória de uma gente turuna, uma gente que sabia singrar a vida de canoa (...) Meninos-lambaris hoje vigiam carros nos estacionamentos (...) Homens-pintados hoje esperam cesta-básica (...) Mas os caminhões de areia são sistematicamente encomendados para a temporada de praia, onde se deleita meia dúzia de gente-glacial. Todo dia é necessário um exame do líquido aquoso para saber a possibilidade de um simples tibum.

Saudade nada, é indignação. Quem se habilita a organizar um encontro de canoeiros do turuna? Quem vai içar as lendas do funil? Sim, é bem mais fácil trazer as estrelas do vôlei de praia. Elas nunca irão conhecer os assentados do Canela (...) não escutam os gemidos das árvores agonizando logo depois do horizonte que encerra a cidade (...) lá onde uma represa continua prometendo o progresso e a luz se apaga no viés do salário. “ Cadê minha lanterna? “