quarta-feira, 30 de maio de 2012

Henrique Borges Machado Lima - Conto



Espaço interior




Sou um cara de costumes e rotinas, faço as coisas como sei que sempre dão certo, do tipo “não se mexe em time que tá ganhando”. Até em coisas pequenas sigo certo ritual, veja esse exemplo: Quando vou à casa de minha namorada sempre faço o mesmo trajeto, na ida vou pela rua de cima, Castanhedo Lima e, na volta, venho pela de baixo, travessa Bosque das Orquídeas. Na esquina da rua de cima tem um bar, aparentemente, um bar como outro qualquer, sempre passava por ele e estava fechado, pois ia cedo para ter mais tempo junto com a figura.

Mas um dia desses mudei meu roteiro e vi o bar aberto, porém, para minha surpresa, não era um bar como outro qualquer, apesar das mesas, cadeiras com a marca da cerveja patrocinadora e outras coisas que todo bar tem, tudo isso apenas na varanda que o rodeia por que não se podia ver o interior do mesmo, pelo simples fato de não haver nenhum facho de luz dentro, todo o espaço interior se encontrava na mais completa escuridão. Essa estranheza de iluminação faz a cabeça de quem olha se perguntar quem teve a ideia? Qual o sentido? Uma jogada de marketing? Por que luzes fora e não dentro do bar? Quem seria o dono, o gênio da lâmpada?

Passei e levei junto com o cheiro da pinga que exalava essas indagações e a certeza que voltaria ali para descobrir o grande mistério e quem seria o criador de tal atmosfera em que da luz faz-se trevas pra quem entra e pra quem sai das trevas faz-se luz.

Com ideias martelando minha cabeça, pensamentos piruetando por meu juízo... Qual seria o significado da iluminação, da falta de iluminação, sei lá, se era por que depois de umas doses tudo se ilumina na vida... Foram tantos pensamentos sobre o significado, até mesmo de não haver significado algum, que não demorei e retornei ao bar.

No caminho veio-me a ideia de que podia ter tido um curto circuito na instalação elétrica naquele dia e que agora quando chegasse ao bar ele estaria iluminado como todo bar, seria mais um lugar comum, com pessoas comuns. Mas como a dúvida pairava, segui.

 E lá estava eu, na entrada iluminada e me preparando para o interior escuro. Não sei descrever a enxurrada de ideias que passou por minha mente, lembro que pensei em voltar, mas não, entrei na escuridão e sentei numa mesa. Um garçom, vestido como garçom normal, veio me atender e por motivos óbvios não me trouxe cardápio, se resumiu a perguntar o que eu desejaria beber. Pedi uma cerveja e ele saiu; nesse intervalo minha visão já havia se acostumado à falta de luz e pude perceber que só havia eu e outro vulto sentado num dos cantos do bar. Chegou a cerveja, tomei um copo, dois, no terceiro chamei o garçom e pedi uma pinga, ele apenas me disse que tinha uma pinga boa e saiu, voltou trazendo a doze que tomei de um gole só. Pedi outra e tomei de virada, tendo como tira-gosto um gole do último copo da cerveja. Fiquei um pouco atordoado que nem percebi que algo se aproximava, quando senti foi uma mão sobre o meu ombro e uma voz que dizia: “você gostou da pinga?”.

Quem perguntou foi o vulto do canto da mesa, que agora se apresentava mais visível. Um senhor alto, cabelos grisalhos, voz ríspida, forte...

Respondi que sim e ele secamente disse: “sou eu mesmo que faço. Essa é a pinga da casa!” Aí que me dei conta ali estava o arquiteto de toda aquela atmosfera intrigante.

Não sentou e mais nada disse, permaneceu em pé ao meu lado, indiferente. Meio que sem jeito eu perguntei o nome dele. Ele como uma estátua, disse friamente “Osmar” e ia se virando para voltar ao seu canto, quando de supetão eu perguntei: “por que não há luz?”.

        Ele seguindo para seu canto disse: “não gosto de pessoas, no escuro vejo apenas vultos do que poderiam ser e não são; e nem gostei de você, é apenas mais um vulto igual a tantos que estão aí fora, apenas curiosos, mais nada.” Sem mais nada dizer sentou no seu canto, acendeu um cigarro e novamente se tornou um vulto. E eu como ele mesmo disse, paguei a conta e voltei a ser como todos que andam pelos bares daquela redondeza.

E sem saber exatamente o que ele quis dizer, segui para casa triste como um vulto humano que adentrou em um bar, bebeu e tediosamente nada aprendeu, nada esqueceu, nada viveu... Apenas bebeu.