quarta-feira, 21 de março de 2012

Brasigóis Felício - Ensaio Crítico


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Angústia e aridez em Graciliano Ramos
                                                              
                                                               
Balzac, o grande romancista francês, que ambicionou, na criação de personagens, competir com o registro civil de seu país, afirmou que a humanidade sacrifica seus pensadores, para depois erigir-lhes estátuas. Parece ter sido este o caso do escritor brasileiro Graciliano Ramos. Mesmo após consagrar-se como um de nossos maiores romancistas, aplaudido por críticos do porte de Álvaro Lins, pela criação de obras imortais da literatura, como São Bernardo, Angústia e Vidas secas, continuou sendo ignorado por Alagoas, seu estado natal.

Em Maceió, onde residiu e foi diretor da Imprensa Oficial, não há nenhuma homenagem à sua pessoa, na forma de museu, casa onde tenha residido. Talvez leve seu nome algum remoto logradouro ou rua de periferia - ao contrário das expressivas homenagens a coronéis políticos de todos os tempos. Dizem os otimistas que o fato talvez seja reflexo da timidez e retraimento do autor, sempre a ocultar ou reprimir o fluxo das emoções, na secura de seu texto seco, despido de adiposidade ou da gordura dos adjetivos, reduzido quase a osso puro: Aludindo à estranha atmosfera de sonho ou delírio, presente nos romances São Bernardo, Angústia e Vidas Secas, Otto Maria Carpeaux assinala a presença, em sua ficção, de tentativas de autodestruição, ou de acabar com a memória: "Há nas minhas recordações estranhos hiatos", diz Luís da Silva, o pessimista personagem de Angústia: "Como certos acontecimentos insignificantes tomam vulto, perturbam a gente!Vamos andando sem nada ver. O mundo é empastado e nevoento".

Há uma afinidade temática visível, entre os romances Vidas secas, de Graciliano Ramos, e  e Ratos e homens, de Stenbeck. Só que o cenário nordestinado é destituído de toda esperança de haver água. É um Mundo rios sem água, de estranhos nomes, como Doido, Barriga, Fubá - como quem vive ao Deus-dará.Quando no tempo não existem horas, só alucinações e sonhos nevoentos, estamos imersos na dimensão do devaneio, ausentes de nós mesmos - situação de vida ou de sobrevivência em que quase não vibra a luz da consciência. E nesta transformação da existência em sonho se comprazem os que dedicam-se a tentar fugir à realidade, correndo freneticamente, no afã de escapar da visão da sua sombra. Empreitada impossível, visto que a sombra segue o vivente por toda parte onde ele vá. Se o fim  é o destino inevitável de tudo o que vive, viver com sabedoria é estar consciente de todas as fases do "vão das coisas", escolhendo o caminho a seguir, não sendo levado como perau, na correnteza dos acontecimentos.

Precipícios não têm princípios - em face da miséria auto-sustentada não se sabe se há fim, nem quando se deu o início. O mundo de angústia e das vidas secas de Graciliano Ramos parece ser um espelho a refletir a desolação de deserto presente nos versos de Thomas Hardy:"Negra copa a noite avança, mas a morte não apavora quem passou tudo e espera sem esperança".