sexta-feira, 9 de março de 2012

Brasigóis Felício - Ensaio Crítico



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                    Vidas Secas - Foto by Evandro Teixeira
Vidas secas


                                                                                                                            

Fabiano é um personagem do romance Vidas Secas, de Graciliano Ramos - e sobre seus ombros pesam séculos de miséria e servidão. Daí que tenha tremido diante do soldado amarelo, despótico e autoritário por tradição, ignorância e costume. Ainda que, não obstante sua rude e sertaneja autoridade, seja ele próprio um excluído da dignidade.

Sao tantos os Fabianos, Severinos do berço à sepultura, mesmo que tenham outros nomes de pia. Iguais na aridez e sofrimento da existência cabocla, vivida em meio à eterna necessidade.Ontem como hoje, mesmo com as bolsas e auxílios que dão suporte à sustentabilidade da pobreza.  Severinos iguais na pobreza da linguagem, não muito mais rica do que a de seus animais de estima e cria.

O cenário agreste, castigado pela seca - torrão esturricado de caatinga brava ainda é o mesmo, na paisagem nordestinada. E o ciclo da miséria permanece, eternizado, com pessoas pensantes que não pensam - apenas obedecem.Pode ser que, vivesse hoje, muitos dos Severinos não fossem tão magros, nem tão pobres quanto o seu Fabiano. Pobres de fato continuam a ser, mesmo que em suas casas existam aparelhos de televisão, ligados a antenas parabólicas - ou que já tenham cacife e ilustração para fazer uso de aparelhos de telefonia celular. A Bolsa Fomília faz que não falte na barriga.

Dá-se então que não seria vero parodiar Euclides da Cunha, dizendo que "O sertanejo é antes de tudo um forte". Talvez hoje seja até barrigudo, e até obeso, embora sofrendo anemia. Como prefeito quase imposto de Palmeira dos Índios foi probo, o que quase não se vê por estes páramos.

Graciliano(recebeu pouco mais de 400 votos e não teve opositor. Ao assumir recebeu uma terra arrasada, mas pouco pode fazer, além de moralizar (sem moralismo) os usos e costumes do longinquo e remoto lugar do sertão das Alagoas. Governou sem fazer distinção de partido ou parentesco, e nisto multou até o seu pai, por expor couro de animais em via pública: "Prefeito não tem pai", decretou. Pôs funcionários barnabés no trabalho, o que deixou muita gente contrariada. Seu exemplo não foi seguido, ao contrário, proliferou como praga o que o gestor reprovava. Sem falso moralismo, exigiu e praticou a moralidade.

O relatório que fez de sua gestão não concluída chamou a atenção para o escritor em potencial. Foi sorte para a literatura ter o velho Graça bandeado para o seu lado. Como político ele não teria prosperado. Não conseguiria ser reeleito, e seria até preso por sua honestidade - como de fato foi aprisionado pelo Estado Novo de Getúlio Vargas, sem processo formal e sem saber do que era acusado. Não foi preso por ser comunista - que ele não era - mas por não ser corrupto, e por não renunciar à sua integridade. Cancro sócio-politico que sufocou o tempo dele, e continuar a sufocar o nosso.