sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Pedro Nava - Poema


Rodrigo Melo Franco de Andrade

Poema para Rodrigo Melo Franco de Andrade



Os elevadores estacaram unanimemente
e sem transição vibraram todos os tímpanos.
Depois um choro desmedido
derramou-se pelo edifício.
Mas foi parando aos poucos,
até perder-se em soluços abafados
um a um.
E houve o silêncio.
 

Eu suspeitei sem a menor malícia
a presença terrível dos arcanjos...
Mas onde?
 

Todos tinham medo de se fitar,
tanto a verdade fazia esforços
para se manifestar nas fisionomias cor de cinza.
 

O momento era de uma gravidade infinita
e devia haver uma lucidez inusitada nos homens,
porque todos pressentiram a decepção irremediável...
— enorme como o sentido oculto das coisas inertes
(seu sentido poético!)
 

E a presença de Deus foi tão absoluta
nas almas retransidas de horror,
que os poetas se sumiram na noite,
tornados de repente inúteis.
 

1933


In: BANDEIRA, Manuel. Antologia de poetas brasileiros bissextos contemporâneos.
Fonte: Jornal de Poesia