quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Mário de Sá-Carneiro - Poema

 

Cinco Horas Minha mesa no Café, Quero-lhe tanto... A garrida Toda de pedra brunida Que linda e fresca é! Um sifão verde no meio E, ao seu lado, a fosforeira Diante ao meu copo cheio Duma bebida ligeira. (Eu bani sempre os licores Que acho pouco ornamentais: Os xaropes têm cores Mais vivas e mais brutais.) Sobre ela posso escrever Os meu versos prateados, Com estranheza dos criados Que me olham sem perceber... Sobre ela descanso os braços Numa atitude alheada, Buscando pelo ar os traços Da minha vida passada. Ou acendendo cigarros, — Pois há um ano que fumo — Imaginário presumo Os meus enredos bizarros. (E se acaso em minha frente Uma linda mulher brilha, O fumo da cigarrilha Vai beijá-la, claramente) Um novo freguês que entra É novo actor no tablado, Que o meu olhar fatigado Nele outro enredo concentra. É o carmim daquela boca Que ao fundo descubro, triste, Na minha idéia persiste E nunca mais se desloca. Cinge tais futilidades A minha recordação, E destes vislumbres são As minhas maiores saudades... (Que história de Oiro tão bela Na minha vida abortou: Eu fui herói de novela Que autor nenhum empregou...) Nos cafés espero a vida Que nunca vem ter comigo: — Não me faz nenhum castigo, Que o tempo passa em corrida. Passar tempo é o meu fito,

Ideal que só me resta: Pra mim não há melhor festa, Nem mais nada acho bonito. 

— Cafés da minha preguiça, Sois hoje — que galardão! — Todo o meu campo de acção E toda minha cobiça. Imagem retirada da Internet: Mário de Sá-Carneiro