domingo, 18 de dezembro de 2011

Amandio Sobral - Conto



A podridão viva

Quem pode saber ao certo, as feras horrendas, fantásticas, os monstros de outras idades que a tenebrosa África esconde no âmago das suas imensas florestas negras e no fundo de suas grandes lagoas escuras? 





NOTA:
Isto não é conto, nem um produto da imaginação do novelista.
É apenas a reprodução fiel, autêntica, da narrativa encontrada no testamento do grande sábio paleontólogo inglês Lord Arthur Brent, que declara tê-Ia ouvido de Sir Ronald Tealer, presidente da poderosa Ivory TealerManufacruring C. Ltd. de Londres, Cape Town e Bombay, que durante muitos anos viveu nas selvas inexploradas daimensa África Austral.
Esses dois cavalheiros, um, glória da ciência mundial, outro, de palavra acatadíssima no alto mundo financeirodos dois continentes, eram incapazes de uma narrativa menos verídica.

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No alto comércio de Londres chamavam-no por um apelido original: "O homem que tem medo d' África". 

Espadaúdo, alto, muito queimado do sol, olhos de um verde sombrio, cabelos inteiramente brancos, andar firme e ar resoluto, era um cavalheiro extremamente simpático, que impunha respeito à primeira vista.

Uns davam-lhe trinta e poucos anos, outros garantiam ter, já há muito tempo, dobrado o cabo tormentoso dos cinqüenta. Eu à primeira vez que o vi, no confortável escritório da sua casa matriz de Regent Street, calculei não ter SirRonald Tealer celebrado ainda o quadragésimo sexto aniversário.

Contavam desse verdadeiro rei do marfim as histórias mais absurdas, porém, o certo é que passara a mocidade nos inóspitos sertões do Continente Negro, onde adquirira-à força de sofrimentos e perigos, essa resolução pronta e a vontade de ferro que o faziam temido e respeitado no alto mundo financeiro da City.

Entretanto  – coisa original!  – não podia ouvir, de súbito, a palavra África. Tornava-se pálido, os seus olhos abriam-se desmesuradamente, e todo ele tremia como se um acesso repentino de frio lhe gelasse o corpo de atleta.

Felizmente essas terríveis manifestações passavam logo. Sem dúvida, alguma horrenda recordação do continente dos hipopótamos e dos leões abalava aquele grande dominador. Daí as histórias mais ou menos fantásticas que circulavam a respeito de suas aventuras africanas.

Um dia fui procurado no meu modesto laboratório do Museum pelo riquíssimo rei do marfim.

Disse, ferindo-me a modéstia, que há muito tempo pretendia visitar-me e "travar relações com um dos maiores paleontólogos do Reino Unido". Desejava também ver a minha livraria técnica que, modéstia à parte, pude afirmar ser a mais completa biblioteca nesse ramo das ciências naturais. Queria conhecer todos os monstros que povoaram aterra, nas eras antidiluvianas.

E, quando comecei a mostrar-lhe as gravuras quase inconcebíveis de alguns dos grandes sáurios do Jurássico, o rei do marfim foi aos poucos se aquecendo, o olhar tornou-se febril, a respiração forçada e abanando a cabeça a cada estampa, dizia surdamente:
 –
Não é esse!... Também não é isso!... Bem me parecia que ainda ninguém o viu. Sou eu o único...

Seriamente intrigado com as palavras e estranhos modos desse homem habitualmente tão frio, calmo, reservado, com habilidade e a custo consegui, naquele momento de intensa agitação nervosa, arrancar do "homem que tem medo d'África" esta narrativa que reproduzo ipsis verbis:

 – Há trinta anos atrás morava eu no Cabo. Começara a ser um dos mais fortes negociantes de marfim de toda a África do Sul.

Farto de ser enganado, roubado escandalosamente pelos negros e meus caçadores brancos, resolvi ir buscar o valioso produto em que comerciava, à própria fonte  – à boca dos elefantes.

Já nessa época esses pacíficos gigantes tornavam-se cada vez mais raros, devido às hecatombes selvagens promovidas pelos régulos indígenas.

Eu e meu sócio  – um bôer leal, duma coragem louca e pontaria infalível (como o provou, mais tarde, em Ladysmith, durante a guerra do Transvaal, dizimando quase sozinho um regimento inteiro da Royal Irish) companhados dum distinto naturalista alemão Dr. Von Spree, que estudava os hábitos dessas montanhas de carne, abalamos, com uma formidável tropa de caçadores nativos, guias, carregadores, quase todos betchuanas e zulus, pelo sertão inexplorado, em direção ao grande rio Zambeze, a elefantolândia daquele tempo.

A nossa viagem foi, como é de supor, penosíssima. Fomes, sedes, febres, chuvas torrenciais, alimentação obrigatória dessa nojenta carne de elefante em que mal penetra o machado, convivência íntima com escorpiões alentados, carrapatos enormes e venenosíssimas moscas tsé-tsé, humor arquievangélico para aturar as mais atrevidas impertinências, descaradíssimas extorsões e até roubos violentos, por parte dos bestiais reisêtes das terras que atravessamos.

A todos os momentos os negros perdiam-se, extraviavam-se, sucumbiam de repente, sem sintomas aparentes de moléstia, ou numa inconsciência absoluta, desertavam com as cargas, em plena selva impenetrável, para irem servir de pasto às feras de dois e quatro pés.

O negro africano semi-selvagem é o supra-sumo da covardia; não possui a menor resistência nervosa,imprescindível à vida ingrata e árdua do explorador, do homem que enfrenta uma natureza desconhecida e hostil.

Formidáveis florestas verde-negras, atapetadas dum húmus balofo e podre, onde se criam os vermes mais nojentos, sucediam-se aos brejos intransponíveis, aos matagais espinhosos, aos alagadiços que exalavam um nauseabundo vapor, abafadiço e mortal.

As noites eram medonhas. O desabar estrondeante das árvores gigantescas carcomidas pelos séculos, os silvos, guinchos e berros ribombavam dentro daquelas brenhas milenárias, confundindo-se com os rugidos dos leopardos, os gritos estrídulos dos elefantes e o ronco do grande leão de juba negra.

A audácia das hienas e lobos era tal que, apesar das fogueiras, vinham ao acampamento roubar as peles de elefante que secavam nos giraus.

O Sr. Conde Von Spree, apavorado ou mordido pela tsé-tsé, enlouqueceu e fugiu de noite pelas brenhas, aos berros e urros.

Dele só encontramos, dias depois, uma perna a decompor-se dentro da bota de couro grosso.

Desaparecido o último guia nativo, uma tarde, perdemo-nos de todo no seio de uns pântanos cobertos degramíneas cortantes, que encobriam, traiçoeiras, as espessas águas lodosas, onde alguns dos nossos foram imediatamente engolidos.

Esqueléticos, semimortos de cansaço, febrentos, cobertos de chagas e parasitos, invadidos dessa apatia peculiar ao negro em perigo, dominados por completo desse fatalismo que os torna indiferentes à sorte mais cruel, caídos por terra, olhos fundos, cavados, delirantes, e um ríctus angustiado nas faces animais, os carregadores não podiam ir mais além. Era o fim!

Pela noite, mal se escondeu o maldito sol de brasas, começou no solo argiloso a brilhar uma estranha fosforescência que, aos poucos, ganhou toda a floresta. Decomposição da matéria orgânica das camadas de folhas caídas? Nunca o soube.

Os negros batiam os queixos de pavor, tapavam infantilmente os rostos com as mãos, aos berros de:  –  Feitiçaria!... Feitiçaria!... Oh-ô-ô-ô-ah!... Uh-u-u-u-ah!...Julguei-me vítima de uma forte alucinação  – delirara de febre o dia inteiro!

 – e, imprudentemente, ingeri uma caixa toda de quinino.

Apoderou-se de mim uma irrefreável vontade de correr, de pular, de subir às árvores. Meio louco, levando na cinta apenas a faca de mato, embrenhei-me na floresta infinda.

Aí, eu vi o monstro! Sim, o terrificante monstro! O ser mais hediondo que se pode imaginar! A podridão viva!...

No âmago de uma floresta, ao pé de uma serrania vulcânica, no meio de uma natureza convulsa, revolta,proveniente de um desses cataclismas de remotas eras, entre penedos gigantes, em que um vento gelado assobiava,ele ergueu-se... Baqueei desfalecente por terra! Jesus, que horror!... Um cheiro podre, a carne decomposta, empestou o ar tonteando os animais a centenas de metros de distância.

Ele não possuía cabeça distinta do corpo. No meio de um colossal ovóide, completamente glabro, gelatinoso,dum roxo desmaiado de chaga rebelde, cheio de pústulas como um morfético, quatro grandes olhos amarelos  –  quatro ou seis?  – duma fixidez e frieza de gelar o sangue, abriam-se desmesurados, perscrutando a mata.

No meio do lodo, encolhido entre as sarças de espinheiros, encharcado dágua fétida das lagoas que transpusera,pregado ao chão, incapaz de mover-me, eu vi  – sim, vi com os olhos!  – essa verdadeira podridão viva, esse horror dos horrores, mexer-se, firmar-se em oito  – Seriam oito ou dez?  – troncos roliços terminados em garras de ave de rapina,curvando as árvores como se fossem ervas.

Saiu de uma espécie de ninho de excrementos, deixando dois ovos negros semelhantes a blocos erráticos.

O fim do corpo abriu-se. Era um orifício profundo como uma caverna, em que fiadas de placas córneas entrechocavam-se como se fossem dentes, e expeliu uma colina de matérias purulentas, esverdeadas.

Depois, as duas patas de frente ergueram-se e introduziram naquela gruta infecta, um elefante vivo que nem gemia, paralisado de terror.

A mastigar, triturando, a estalar os ossos do paquiderme, deslizou no lodo negro e foi, aos poucos, sumindo-sena lagoa espumosa e sombria.

Três meses depois eu convalescia no melhor hospital de Pretória e, apesar de tratado por médicos especialistas,ainda tinha o olhar inquieto, suspeitoso, meio desvairado, cheio de fulgores luminosos, a voz rouca, com inflexõesásperas e bruscas, enfim um todo de legítimo louco, nervos alterados, corpo sacudido de tremores convulsos, ataquesde afonia.

Ninguém quis acreditar na minha narração. Disseram-me ser uma alucinação proveniente dum formidávelenvenenamento pelo quinino. Outros asseguravam-me ser o efeito da picada das moscas tsé-tsé ou de algumaserpente desconhecida, mas os meus carregadores indígenas que bateram as florestas durante dias até meencontrarem desmaiado, a morrer no fundo de uma cova de apanhar leões, juraram todos terem visto na lama o rastode uma fera colossal, desconhecida, bem maior, sem dúvida, que o mais crescido de todos os elefantes.

Infelizmente ninguém pode dar crédito a negros, pois eles me garantiram e trejuraram, várias vezes, que osproboscídeos dormiam pendurados pelas trombas à copa das palmeiras!?...

Liqüidei com felicidade meus negócios e, apurando uma regular fortuna, retirei-me aqui para Londres, onde oanimal mais feroz é o banqueiro.

"Mas, quem pode saber ao certo, as feras horrendas, fantásticas, os monstros de outras idades que a tenebrosaÁfrica esconde no âmago de suas imensas florestas negras e no fundo de suas grandes lagoas escuras?"

(1934)

In. Contos Fantásticos Brasileiros. Org.: Braulio Tavares. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2003, p.27-31.
Imagem retirada da Internet: Marfim