quarta-feira, 9 de novembro de 2011

JJ Leandro - Crônica





O revolucionário estádio da Copa


A possibilidade e o temor — não injustificados — de atrasos no cronograma de reformas e construção de estádios para a Copa do Mundo de 2014 têm ofuscado uma observação de fundamental importância e que deveria estar na ordem do dia no país: a capacidade criativa de engenheiros e arquitetos brasileiros. Deveria ser mais observada que os orçamentos dessas obras que se inflacionam da noite para o dia, levantando suspeitas de superfaturamento que em pouco tempo — se confirmadas — podem requerer não tapetes mas gramados para esconder irregularidades. Neste jogo de gato e rato em que se enredam a imprensa, os políticos e os cartolas do futebol, os torcedores em meio ao fogo cruzado com o coração na mão, perde-se a oportunidade de comprovar quão revolucionários e criativos somos. E isso, claro, iria ratificar que Oscar Niemeyer, aplaudido no mundo todo, não foi só um feliz acidente de percurso da engenharia nacional, pouco provável de voltar a acontecer.
Bom que se diga que o frisson da Copa gerou uma onda criativa até em arquitetos de cidades que sequer serão sobrevoadas pelos aviões com delegações nacionais ou turistas. Nem por isso esses profissionais sentem-se excluídos neste mundo que já foi Aldeia Global e hoje é uma Grande Rede. Um amigo meu que o diga.  Arquiteto inquieto, há muito preparava um projeto revolucionário de estádio que ‘não faria feio diante dos rebuscados, caros e ineficientes elefantes brancos de sedes e subsedes da Copa’, como se referia ao abordar o assunto. E eu cá com os meus botões, como é usual dizer aqui no interior, pensava que ele era bem capaz de um disparate iluminado. Seu histórico profissional conspirava a favor de minhas suspeitas. Fora ele que projetara o shopping da cidade — ideia excêntrica abandonada em boa hora — que previa, e aí está o mais fantástico!, uma escada rolante ambulante para acessar o mezanino  deslocando-a para qualquer ponto de sua frente de mais de cem metros. Fiquemos só com esse exemplo porque outros tais são também de tirar o fôlego.
Ostrich, como o chamarei — isso é codinome pois não sou de fazer publicidade grátis —, pôs mãos à obra e me cientificou que trabalhava de forma revolucionária. Até nas folgas entre as sucessivas horas de trabalho em seu escritório, arejando a mente com goles de cerveja, não desviava a atenção de seu projeto. Sonhava: ‘Ah se eu tivesse a oportunidade de vê-lo aprovado como um dos estádios da Copa’. Voltava imediato ao escritório elevando seus sonhos em espirais da fumaça do cigarro.
Belo dia chegou ao bar onde eu estava com um grande sorriso no rosto. Era daqueles que autenticam certeza. O que será?, intriguei-me antes que se expressasse com palavras. Era o projeto de Estádio Revolução, como o batizou. Abriu o papel sobre o feltro verde da mesa de bilhar, para onde me arrastou após arrancar uma grande pasta de dentro do carro.
— É ele, veja! — exultou, quase me exigindo aplausos.
Rasgou ele mesmo elogios ao projeto. Era um arquiteto que odiava tudo que era estático.
— Veja — continuou, apontando o desenho com o dedo marcado pelo sarro do cigarro —, as arquibancadas são móveis. Deslocam-se de um lado a outro do campo. Não é genial?
Engrolei um comentário que ele atribuiu a minha estupefação diante de sua obra-prima.
Manteve por alguns segundos um silencioso suspense, para potencializar o efeito sobre mim da verdadeira revolução por fim revelada com a mesma vibração de um jogador após dar xeque-mate em decisão de título mundial de xadrez.
— O gramado tem inclinação de 45 graus de um gol a outro. Essa é a grande revolução de meu projeto, não a simples e repetitiva modificação das linhas de concreto e aço. Está, pois, no novo conceito de utilização do gramado a grande revolução.
De fato não era para menos, fiquei boquiaberto. Mas não dispensei um comentário que qualquer outro arquiteto tomaria como demolidor de seus devaneios.
— Ostrich, como os times vão jogar? Um vai estar em desvantagem.
O seu sorriso iluminado era a negativa de uma rendição.
— E eu não pensei nisso, então? Pra que temos dois tempos no futebol? Pra que as coisas se equilibrem. No segundo tempo, a vantagem troca de lado, ora.



Imagem retirada da Internet: bola