quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Manoel Bueno (Nequito) - Poema



O húmus há de ficar na planta.
A planta (sua versão na flor)
ainda fica no voo e no ovo da ave.
Conforme a fome ou o (nem) tanto de pasto,
já havia intumescido o úbere farto,
o que deixou murchas as ancas
de certa "vaca de divinas tetas"
vertido todo o amor do leite derramado
dos cantos de tua boca infante
vida a fora, ânsia a dentro.

Penando embora,  vive a ave no homem
ainda que no átrio da casa:
o pássaro, preso - os ouvidos só no quintal
o homem , cego - os olhos apenas no canto.
Livre, no encanto, é a ave:
não deve um ninho só que lhe fizessem;
a nenhuma voz desafinou, que não se comovesse;
não fez de ninguém escravo, a quem não servisse.

Por que agora deve justo o homem
- já leva um cravo no peito
um espinho na planta do pé
e suporta todo o transe
da pedra no caminho
no sentimento do mundo
ser apenas aquele vagabundo
imolado na cena final da solidão
Calado seu grito de dor
em tudo o que se perde
no nada que se dissolve?
logo ele, prisioneiro da vida
em seus pesares,
mas sempre esse companheiro
e sentinela que vigia
lembranças e profecia?

In. Candeia de canto. Goiânia: Ed. da UFG, 1996.