sábado, 22 de outubro de 2011

Edmar Oliveira - Crônica



Matar, matar, matar. Afinal, quanto vale uma vida?



A humanidade sempre conviveu com assassinatos. Desde os tempos mais remotos, na luta pela sobrevivência nas cavernas — no raciocínio darwiniano — ou a partir do alegórico caso bíblico em que o invejoso Caim matou o irmão, Abel. Mas por que o homem mata seu semelhante? Basicamente movido por instinto inato, mas as motivações vão desde a rivalidade no futebol à gula pelo dinheiro alheio.
Foi por dinheiro que, na noite de 31 de dezembro de 2002, num bairro nobre de São Paulo, Suzane Louise von Richthofen comandou o brutal assassinato dos próprios pais, Manfred Albert e Marísia von Richthofen. Daniel Cravinhos, na época namorado de Suzane, e o irmão, Christian Cravinhos, se encarregaram de desferir golpes de barra de ferro na cabeça de Manfred e Marísia. Manfred morreu na hora, e Marísia ainda agonizou com massa encefálica exposta, segundo a polícia. O casal dormia na hora fatídica.
Loira, olhos verdes, voz suave, divinamente linda e diabolicamente macabra, Suzane articulou o inominável. Ela e os irmãos Cravinhos queriam euros e dólares de Manfred e Marísia, agasalhados no cofre da mansão do casal. Após o sucesso diabólico, Suzane e Daniel Cravinhos comemoraram num motel. Os três assassinos foram condenados a penas que chegam a 50 anos, que cumprem em presídios paulistas.
A banalização dos chamados crimes contra a vida é de difícil explicação. Especialistas divergem. As teses não batem. Os números do horror são inexatos. “A mídia tem grande responsabilidade nisso, pois fica divulgando e alimentando o mau, tornando-o ‘natural’ para a sociedade”, afirma um sociólogo. “Não, a culpa é da falta de escola adequada para as crianças, que acabam se envolvendo com marginais para, no futuro, se tornar um deles”, assegura um especialista em segurança pública. “É da natureza humana”, decreta um psicanalista. “Falta Deus no coração”, prega um padre. “O maior problema é a impunidade”, decreta um promotor de justiça. É provável que todos tenham razão, mas ninguém consegue explicar com segurança o porquê de tantos homicídios, sobretudo por motivos banais. Hoje, matar é como ir a uma festa, tomar uma cervejinha e dançar. É o rock do diabo.
Tiago Fernandes da Silva Chaves, o “Tiagão”, de 21 anos, é considerado perigosíssimo pela polícia dos estados do Maranhão e Piauí. Mas um comparsa não levou a sério os antecedentes criminais de Tiagão, que já havia matado seis pessoas nos dois estados. A “ingenuidade” de Marcos Antônio Aparício, de 22 anos, custou-lhe a vida. Foi morto por Tiagão a facadas na rodoviária de Timon, pequena cidade do Maranhão, em março deste ano, porque não pagou ao parceiro uma monstruosa dívida de R$ 1. O bandido impiedoso fez sua sétima vítima, foi preso e condenado a mais de 30 anos de prisão.
Fiel de uma igreja evangélica da mesma cidade de Tiagão, Lineuza Oliveira e Silva, de 24 anos, estava sempre pregando a Bíblia. Não perdia a oportunidade de falar sobre céu, inferno, Jesus Cristo. Assídua no templo, seguia à risca os ensinamentos do pastor, inclusive pagando em dia o dízimo. Mas nem sempre seguia o amor e desapego ensinados por Cristo. De onde tirava dinheiro, se não trabalhava? Dos pobres e idosos pais, Lourival Rodrigues da Silva e Joana Borges de Oliveira e Silva, de 73 e 71 anos, respectivamente. Os idosos viviam do salário mínimo da aposentadoria e já haviam perdido a TV para a filha, que a vendeu para engordar os cofres da “casa de Deus”.
Na manhã de um domingo ensolarado de janeiro passado, antes de seguir para a escola dominical, Lineuza Oliveira foi possuída por Satanás. Furiosa por não conseguir a “décima parte devida a Deus”, como sempre dizia quando queria os recursos minguados dos pais adotivos, executou-os a machadadas, enquanto dormiam. Segundo o delegado de Timon, Ricardo Hérlon Furtado, nos dias que antecederam a crueldade, a moça demonstrava forte obsessão em ficar rica. Dizia que se desse R$ 5 mil à igreja, Deus lhe daria três vezes mais. Com uma frieza de arrepiar, Lineuza explicou a uma TV local o que fez: “Do pó viemos e para o pó iremos”.
O que mais chama a atenção de especialistas são a frieza e crueldade dos matadores e os motivos dos crimes. Nos Estados Unidos, ficou famoso o caso de Betty Johnson Neumar, conhecida como “Viúva Negra”, moradora de uma pequena cidade da Georgia, que deixou a cadeia recentemente depois de pagar fiança de 200 mil euros, segundo “O Globo”. Betty Johnson, uma aparentemente doce velhinha, mandou matar cinco maridos para ficar com o seguro de vida deles. A polícia só conseguiu decifrar os caminhos da teia de aranha da “doce velhinha” após anos de investigação. Segundo policiais, ela executou o primeiro marido na década de 1950.
Conforme reportagem do jornal “Zero Hora”, de Porto Alegre, dados da pesquisa Mapa da Violência mostra que o Brasil ainda lidera o ranking de assassinatos no planeta, em números absolutos. São 46 mil homicídios por ano, em média. Mas, em termos proporcionais, deixou de encabeçar esse campeonato macabro. O Brasil ocupa hoje o sexto lugar na taxa de homicídios por 100 mil habitantes, num ranking de 91 países. A média é de 25 assassinatos por 100 mil habitantes. Fomos superados em violência, nos últimos anos, por El Salvador, Colômbia, Guatemala, Ilhas Virgens Americanas e Venezuela.
O sociólogo Julio Waiselfisz, coordenador da pesquisa Mapa da Violência, nem pensa em comemorar essa mudança. Em primeiro lugar, porque acredita que ela pode ser circunstancial, sazonal. Em segundo lugar, porque o que ocorreu foi um aumento da violência em outros países latino-americanos, sem que o Brasil tenha experimentado redução significativa nos indicadores.
Afinal, quanto vale uma vida? É possível mensurar em dinheiro a existência de uma pessoa? Se perguntarmos a Suzane Louise von Richthofen e a Tiagão, teremos uma resposta tão sangrenta quanto os noticiários policiais de todos os dias.
Edmar Oliveira é jornalista.

Imagem retirada da Internet: Algemas