sexta-feira, 27 de maio de 2011

Mécia Rodrigues - Ensaio Poético



La Bohème





para Egle Gruppi Turini, minha avó



Alguma coisa lírica soou na minha memória, quando entrei na Barão de Itapetininga, em meio à profusão dos pisca-piscas, à polifonia própria de dezembro e à infinita variedade de quinquilharias pelas vitrinas úmidas e garoentas. As palmeiras do Vale, a enorme árvore de natal ali montada, o Theatro Municipal.
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Sabonetes em formato de noz. Da Kanitz. Havia as caixas grandes, com três, e a pequenas, com um. As caixas verde-claro, enfeitadas com papel transparente picado. No meio dele se acomodavam as nozes-sabonetes. E também havia as caixas de talco, de madrepérola, com esponjas tão leves que pareciam flutuar. E os chocolates da Kopenhagen.
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O circo de Moscou, os doces sírios da ladeira Porto Geral, Os três mosqueteiros, O cavaleiro da máscara de ferro, Miguel Strogoff. As fotonovelas dos dias chuvosos, quando a máquina de costura deixava de ser pedalada. A caneta preta, de pena de irídio, do meu avô.
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Subi até a Sete de Abril e entrei na galeria onde comprávamos, eu e minha mãe, os presentes de natal para minha avó. E, talvez, para reencontrar a ambas, eu procurava o sabonete da Kanitz.
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A garoa se transformou numa chuva forte, que me obrigou a ficar parada na porta da galeria, na saída da praça Dom José Gaspar. Um punhal pintado na perna direita da minha calça jeans e uma rosa entrelaçada nele. Com essa displicência atravessei natais e invernos rigorosos, mp3 e gramophones, perfumes de pinheiro e todas as tempestades possíveis.
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A chuva parou. As pessoas que, como eu, estavam por ali, esperando que ela passasse, começaram a se dispersar. E naquela pequena multidão eu via o vulto da minha avó e da minha mãe passando com caixas e caixas de sabonete e chocolates. E as notas claras de uma ária:
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Al buio non se trova
Ma per fortuna è una notte di luna...
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— Ah, como eu queria um Nintendo com dois controles e quatro cartuchos, suspirou a voz, ao meu lado, olhando para a vitrina. E depois, para mim. Era uma menina suja e mal vestida, de uns dez anos, cujo rosto brilhava com uma graça irresistível. — Você não queria um Nintendo daqueles? Ela perguntou bem alto. Dei um sorriso forçado. Eu estava atravessando a praça e havia parado um minuto em frente à uma loja de brinquedos, mais para olhar o movimento dos estudantes, costureiras, pequenas vendedoras de fósforos, gatunos, camelôs indo embora, vagabundos, homens de terno e gravata, mulheres cheias de charme.
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— Você não me respondeu...e a menina cutucou minha perna com o dedo.
— O que eu não respondi?
— Sobre o Nintendo...

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So bien...le angoscie tue,
Non le vuoi dir
Non le vuoi dir
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Os corrimãos de ferro e as escadas de mármore da Estação da Luz, a litorina das 21h, um cravo vermelho em um vaso de vidro e a toalha branca de linho do vagão-restaurante. E uma hora depois, a casa da minha avó.
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— Olha aqui, chatinha, eu disse para a garota suja, o que eu tenho de dinheiro dá pra comprar uma vela bem bonita, milk-shake e batatas fritas do McDonald’s, serve? — Para que a vela? ela perguntou. Fingi que não ouvi.
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— Os dois de chocolate, falei para a moça do caixa. Peguei o troco e disse à garota: — Vamos sentar nas escadas do Municipal, acender a vela e falar mal dos natais, das pessoas, das injustiças, da falta de dinheiro. — Estão molhadas, disse a menina. — Com esse calor, já secaram.
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A neve caindo devagar sobre os telhados, um quadro a óleo, a casa de penhores, as cinzas da lareira apagada. Sobe o pano no Teatro Régio de Turim, 1896. Libreto por Giusepi Giacasa e Luigi Flicca, baseado em Scènes de la Vie de Bohème, de Henri Murger.
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Mal nos sentamos em um dos degraus, vinha vindo um homem cheio de pacotes, que pelo volume, supus serem os caros panetones da Dulca. Levantei e fui até onde ele estava: — Boa-noite, cavalheiro, preciso acender esta vela, o senhor teria um isqueiro para me emprestar? Ele se atrapalhou um pouco, pediu para eu segurar os pacotes — os panetones? — enquanto acendia um zippo. Que mais parecia um lança-chamas.
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Pisquei para a menina, sentada na escada, segurando os mil-shakes e as batatas. Que, por sua vez, também piscou para mim. O homem me olhou, segurando o zippo aceso: — Você...e pigarreou. Encostei o pavio da vela na chama e sorri: — Eu?
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Che cosa faccio? Scrivo.
E come vivo? Vivo.
In povertá mia lieta
Scialo da gran signore
Rime ad inni d’ amore.
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Acendi a vela vermelha, enfeitada com frisos dourados, e o nome da minha avó, escrito nela, brilhou mais do que todas as luzes do centro da cidade.





 In. Jornaleco