terça-feira, 3 de maio de 2011

Katherine Mansfield - Conto



A casa de bonecas





Quando a boa e velha sra. Hay voltou à cidade, depois de passar uns dias com os Burnells, mandou para as meninas uma casa de bonecas. Era tão grande que o entregador e Pat levaram-na só até o quintal e lá ela ficou, apoiada em dois caixotes de madeira, ao lado da despensa. Não haveria problemas; era verão. E o cheiro de tinta talvez já tivesse desaparecido na hora de levá-la para dentro. Pois, francamente, o cheiro de tinta que vinha da casa de bonecas (“Que gentileza da sra. Hay; extremamente gentil e generosa!”), sim, aquele cheiro de tinta era suficiente para deixar qualquer pessoa seriamente doente, na opinião da tia Beryl. Mesmo antes de tirar a aniagem. E quando isso aconteceu...

Lá estava a casa de bonecas, verde espinafre, escuro e viscoso, com toques de um amarelo brilhante. Suas duas chaminezinhas falsas, coladas no telhado, eram pintadas de vermelho e branco, e a porta, num reluzente verniz amarelo, parecia um pedaço de caramelo. Quatro janelas, janelas de verdade, eram divididas em vidraças por uma larga faixa verde. Havia ainda um pequeno alpendre, pintado de amarelo, com grandes gotas de tinta seca pendentes das bordas. 

Mas era uma casinha perfeita, perfeita! Quem se importaria com o cheiro? Era parte da alegria, parte da novidade.

“Abram depressa!”

O gancho na lateral estava bem preso. Pat forçou-o com seu canivete e toda a fachada da casa se abriu e – pronto, via-se, de uma vez, a sala de estar, a sala de jantar, a cozinha e dois quartos. É assim que uma casa deve abrir! Por que todas as casas não se abrem desse jeito? É muito mais excitante do que ficar espiando por uma fresta da porta um mísero vestíbulo com uma chapeleira e dois guarda-chuvas! É isso – não é mesmo? – que a gente quer saber a respeito de uma casa no momento em que põe a mão na aldrava da porta. Talvez seja assim que Deus abra as casas na calada da noite quando Ele faz Sua ronda tranqüila com um anjo...

“Ooooh!” As meninas Burnell davam a impressão de estar fora de si. Era muito maravilhoso; era demais para elas. Elas nunca tinham visto nada parecido em suas vidas. Todos os cômodos tinham papel de parede. Havia quadros, pintados sobre o papel, até com molduras douradas.

Um tapete vermelho cobria todo o assoalho, com exceção da cozinha; lá havia cadeiras e poltronas forradas de veludo vermelho, na sala de estar, e verde, na sala de jantar; mesas, camas, com roupa de cama de verdade, um berço, uma lareira, um fogão, um armário de cozinha com pratinhos minúsculos e uma grande jarra. Mas o que Kezia gostou mais do que tudo, o que a impressionou demais, foi o lampião. Estava no centro da mesa da sala de jantar, um requintado lampião cor de âmbar, com cúpula branca. Tinha tudo para ser aceso, embora, é claro, não se pudesse fazê-lo. Mas havia alguma coisa dentro que parecia querosene e que mexia quando você chacoalhava.

As bonecas do pai e da mãe, estiradas, duras, como se tivessem desmaiado na sala de estar, e as duas criancinhas dormindo no andar de cima, eram realmente grandes demais para a casa de bonecas. Não combinavam com a casa. Mas o lampião era perfeito. Parecia sorrir para Kezia e dizer: “Eu moro aqui”. O lampião era de verdade.

As meninas Burnell andaram o mais rápido que podiam para chegar à escola na manhã seguinte. Estavam loucas para contar a todas as colegas, para descrever, para – bem – vangloriar-se de sua casa de bonecas antes que o sino tocasse.

“Quem vai contar sou eu”, disse Isabel, “porque sou mais velha. Depois vocês falam. Mas eu falo primeiro”.

Não havia como contestar. Isabel era mandona, mas sempre tinha razão, e Lottie e Kezia sabiam muito bem os poderes da primogenitura. Rasparam pelos canteiros de botões-de-ouro na beira da estrada e não disseram nada.

“E sou eu quem vai escolher as meninas que vão ver primeiro. A mamãe disse que eu posso.”

Pois tinha sido combinado que enquanto a casa de bonecas permanecesse no quintal, elas poderiam convidar as amigas da escola, duas de cada vez, para irem vê-la. Não poderiam ficar para o chá, é claro, nem circular por dentro de casa. Mas só ficar comportadamente no quintal, enquanto Isabel mostrava todas aquelas maravilhas e Lottie e Kezia assumiam um ar de contentamento...

Mas por mais que se apressassem, quando chegaram à cerca do pátio dos meninos o sino tinha começado a tocar. Elas apenas tiveram tempo de tirar o chapéu e entrar na fila antes que sua classe fosse chamada.

Não faz mal. Isabel tentou compensar o fato fazendo-se de importante e misteriosa e, cobrindo a boca com a mão, cochichou para as meninas que estavam perto dela: “Tenho uma coisa para contar no recreio”.

O recreio chegou e Isabel foi cercada. As meninas da classe dela quase brigavam para abraçá-la, para andar com ela, lisonjeá-la, ser sua melhor amiga. Ela juntou em torno de si uma corte e tanto sob os grandes pinheiros ao lado do pátio. Acotovelando-se, rindo ao mesmo tempo, as meninas se amontoavam. E as únicas que não entraram na roda foram as duas que sempre eram excluídas, as pequenas Kelveys. Elas sabiam que não deviam se aproximar das Burnells.

O fato era que a escola freqüentada pelas meninas Burnell não era em absoluto o lugar que seus pais teriam escolhido caso houvesse qualquer outra opção. Mas não havia. Era a única escola num raio de quilômetros. Em conseqüência, todas as crianças da vizinhança, as filhinhas do juiz, as filhas do médico, do dono da mercearia, do leiteiro, eram forçadas a se misturar. Isso para não falar que havia igual número de meninos grosseiros e malcriados. Mas a linha tinha que ser traçada de algum modo. E foi traçada nas Kelveys.

Muitas meninas, incluindo as Burnells, não tinham permissão nem de conversar com elas. Passavam pelas Kelveys com o nariz empinado e, como eram elas que estabeleciam os parâmetros no que se referia a padrões de comportamento, as Kelveys eram repelidas por todo mundo. Até mesmo a professora se dirigia a elas com uma entonação especial e reservava um sorriso especial para as outras meninas quando LilKelvey se aproximava de sua mesa com um ramalhete de flores de aparência lastimavelmente vulgar. Elas eram filhas de uma lavadeira muito enérgica e trabalhadora, que durante o dia ia de casa em casa. Só isso já era terrível. Mas onde estava o sr. Kelvey? Ninguém sabia com certeza. Mas todo mundo dizia que estava preso. Assim, elas eram filhas de uma lavadeira e de um presidiário. Que bela companhia para as outras meninas! Sem falar
na aparência.

Era difícil entender por que a sra. Kelvey as fazia chamar tanto a atenção. A verdade é que elas se vestiam com “trapos” que as pessoas para quem sua mãe trabalhava lhe davam. Lil, por exemplo, que era uma menina robusta, feiosa, sardenta, ia para a escola com um vestido feito com uma toalha de mesa de sarja verde da casa dos Burnells, com mangas de veludo vermelho da cortina dos Logans. Seu chapéu, empoleirado no alto da ampla testa, era um chapéu de mulher adulta, outrora propriedade da srta. Lecky, a funcionária do correio. A aba era revirada, na parte de trás, e era enfeitado com uma grande fita escarlate. Que figura! Era impossível não rir. E sua irmãzinha, Else, usava um vestido branco e comprido, mais parecido com uma camisola, e um par de botas de menino.

Mas qualquer coisa que a nossa Else vestisse ficaria estranho. Era uma pequerrucha com o cabelo cortado rente, de olhos enormes e solenes – uma corujinha branca. Ninguém nunca tinha visto ela sorrir; ela quase nunca falava. Vivia agarrada em Lil, segurando firme na barra da saia da irmã. Onde Lil ia, Else ia atrás. No recreio, na estrada que ia e vinha da escola, Lil ia na frente e Else vinha atrás, grudada nela. Somente quando queria algo ou quando perdia o fôlego, a nossa Else dava um puxão e Lil parava e se virava. As meninas Kelvey sempre se entendiam.

Agora elas rondavam por fora; não se podia impedi-las de ouvir. Quando as meninas se viraram com desdém, Lil, como sempre, deu um sorriso desenxabido, acanhado, mas a nossa Else apenas ficou olhando. E a voz de Isabel, cheia de orgulho, continuou contando. O tapete provocou grande sensação, como também as camas, com roupa de cama de verdade, e o fogão, que tinha até a porta do forno. Quando ela terminou, Kezia começou.

“Você se esqueceu do lampião, Isabel.”

“Ah, sim”, disse Isabel, “e tem também um lampião bem pequeno, feito de vidro amarelo, com uma cúpula branca, em cima da mesa da sala de jantar. Parece um lampião de verdade”.

“O lampião é o melhor de tudo”, exclamou Kezia. Ela achou que Isabel não estava valorizando suficientemente o pequeno lampião. Mas ninguém prestou a mínima atenção. Isabel estava escolhendo as duas que voltariam com elas aquela tarde para ver a casa de bonecas. Escolheu Emmie Cole e Lena Logan. Mas quando as outras ficaram sabendo que todas teriam uma oportunidade, foram só gentilezas para Isabel. Uma a uma, passaram o braço em torno da cintura de Isabel e afastaram-se com ela. Todas tinham um segredo para contar a ela. “Isabel é minha amiga.”

Somente as pequenas Kelvey foram embora esquecidas; não havia mais nada para elas ouvirem. Dias se passaram, e quanto mais meninas viam a casa de bonecas, mais sua fama se espalhava. Virou o assunto do momento, uma febre. A única pergunta que se fazia era: “Você já viu a casa de bonecas das Burnells? Oh, não é uma graça?”, “Você ainda não viu? Oh, é demais!”.

Até a hora do lanche era dedicada a falar da casa. As meninas sentavam-se debaixo dos pinheiros, comendo seus sanduíches de carne de carneiro e grandes fatias de pão de milho com manteiga. Enquanto isso, como sempre, tão perto quanto podiam, lá estavam também as meninas Kelvey, Else agarrada com Lil, ouvindo também, enquanto mastigavam seus sanduíches de geléia, embrulhados em papel de jornal, todo empapado com grandes manchas vermelhas.

“Mamãe”, disse Kezia, “posso convidar as Kelveys só uma vez?”.

“De jeito nenhum, Kezia.”

“Mas por que não?”

“Vamos mudar de assunto, Kezia; você sabe muito bem por que não.”

Finalmente todas viram a casa, com exceção delas. Naquele dia as meninas estavam um tanto sem assunto. Era a hora do lanche. Estavam sentadas sob os pinheiros e de repente, enquanto olhavam as Kelveys comendo seus sanduíches, à parte como sempre, sempre ouvindo, decidiram ser cruéis. Emmie Cole começou a cochichar.

“Quando crescer, Lil Kelvey vai ser uma criada.”

“Oh, que horror!”, exclamou Isabel Burnell, piscando para Emmie.

Emmie retribuiu a piscada de um jeito muito maldoso e concordou com Isabel como vira sua mãe
fazer em ocasiões assim.

“É verdade – é verdade – é verdade”, disse.

Então os olhinhos de Lena Logan brilharam. “Será que pergunto a ela?”, murmurou.

“Duvido”, disse Jessie May.

“Eu não tenho medo”, declarou Lena. De repente ela deu uma risada e se pôs a dançar diante das outras meninas. “Olhem! Olhem! Olhem para mim agora!”, disse Lena. E deslizando, flutuando, puxando um pé, escondendo o riso com a mão, Lena aproximou-se das meninas Kelvey.

Lil ergueu os olhos do lanche. Embrulhou rapidamente o resto. A nossa Else parou de mastigar. E agora?

“É verdade que você vai ser uma criada quando crescer, Lil Kelvey?”, perguntou Lena, com voz
estridente.

Silêncio mortal. Em vez de responder, Lil apenas deu aquele seu sorriso desenxabido e acanhado. Não pareceu se incomodar nem um pouco com a pergunta. Que fiasco para Lena! As meninas começaram a dar risos abafados. Lena não ia engolir aquilo. Pôs as mãos na cintura; e disparou.

“Pois é, seu pai está na cadeia!”, caçoou com desprezo.

Isso foi uma coisa tão espantosa de dizer que as meninas saíram de lá correndo, profundamente excitadas, loucas de alegria. Uma delas encontrou uma corda comprida e elas começaram a pulá-la. E nunca pularam tão alto, nunca correram para cá e para lá com tamanha rapidez, nem fizeram coisas tão ousadas como naquele dia.

No final da tarde Pat veio buscar as meninas Burnell com a charrete e elas se dirigiram para casa. Havia visitas. Isabel e Lottie, que gostavam de visitas, subiram para o quarto a fim de mudar de avental. Mas Kezia encaminhou-se furtivamente para os fundos da casa. Lá não havia ninguém e ela trepou nos grandes portões brancos do quintal e se pôs a balançar. Então, olhando para a estrada, viu dois pequenos pontos, que se tornavam cada vez maiores e caminhavam em sua direção. Agora conseguia perceber que um vinha na frente e o outro logo atrás. Agora dava para ver que eram as meninas Kelvey. Kezia parou de se balançar. Desceu do portão como se fosse sair correndo, mas hesitou. As Kelveys chegaram mais perto; ao lado delas caminhavam suas sombras, muito compridas, estendendo-se através da estrada com as cabeças nos botões-de-ouro. Kezia voltou a trepar no portão; tinha tomado uma decisão; balançou-se.

“Olá”, disse para as meninas Kelveys que passavam.

Elas ficaram tão surpresas que pararam. Lil deu aquele seu sorriso inexpressivo. A nossa Else ficou olhando. “Se quiserem podem entrar e vir olhar nossa casa de bonecas”, disse Kezia, pondo um pé no chão. Mas com isso Lil ficou muito vermelha e sacudiu a cabeça rapidamente.

“Por que não?”, perguntou Kezia.

Lil respirou fundo e disse em seguida: “Sua mãe disse para nossa mãe que você não deve falar com a gente”.

“Ah, bem”, disse Kezia. Não sabia que resposta deveria dar. “Isso não tem importância. Mesmo assim vocês podem entrar e dar uma espiada em nossa casa de bonecas. Venham. Ninguém está olhando.”

Mas Lil balançou a cabeça ainda com vigor. “Então vocês não querem?”, perguntou Kezia.

De repente Lil sentiu que alguém puxava sua saia. Ela voltou-se. A nossa Else a encarava com aqueles seus olhos enormes e quase implorava; ela queria ir. Por um momento Lil olhou para a nossa Elsie, cheia de dúvidas. Mas então a nossa Else voltou a puxar a saia dela. Deu um passoadiante. Kezia foi na frente. Como dois gatos de rua elas seguiram até o quintal onde estava a casa
de bonecas.

“Pronto!”, disse Kezia.

Houve uma pausa. Lil ofegava; sua respiração era quase um ronco; a nossa Else estava petrificada.

“Vou abrir para vocês”, disse Kezia, muito gentil. Ela soltou o gancho e as duas olharam para dentro.

“Aqui está a sala de estar e a sala de jantar; aqui é a...”
“Kezia!”

Oh, que susto elas levaram!

“Kezia!”

Era a voz da tia Beryl. Elas se viraram. Na porta dos fundos, estava a tia Beryl, olhando fixamente, como se não pudesse acreditar no que via.

“Como você se atreve a convidar estas meninas para vir ao quintal?”, disse com frieza, furiosa. “Você sabe, tanto quanto eu, que não tem permissão de falar com elas. Vão embora, meninas, retirem-se. E não voltem mais”, disse a tia Beryl. E andou até o quintal e, com um gesto brusco, espantou as meninas como se fossem galinhas. “Saiam imediatamente!”, disse, fria e orgulhosa.

Elas não precisaram que lhes dissessem duas vezes. Vermelhas de vergonha, encolhidas, Lil com os braços cruzados no peito, num gesto humilde, como sua mãe, a nossa Else, aturdida, atravessaram o grande quintal e esgueiraram-se pelo portão branco.

“Menina desobediente, má!”, disse tia Beryl asperamente para Kezia, fechando com um gesto brusco a casa de bonecas.

A tarde fôra terrível. Chegara uma carta de Willie Brent, aterrorizante, ameaçadora, na qual ele dizia que se ela não fosse encontrá-lo naquela mesma noite em Pulman’s Bush, ele viria até a porta de entrada da casa e perguntaria o motivo! Mas agora que ela assustara as miseráveis das Kelveys e depois de passar um bom pito em Kezia, seu coração estava mais leve. Aquela desagradável pressão desaparecera. Ela voltou para casa cantarolando.

Quando as Kelveys deixaram bem para trás a casa dos Burnells, sentaram- se para descansar em cima de um grande cano vermelho na beira da estrada. O rosto de Lil ainda queimava; ela tirou o chapéu e pousou-o sobre o joelho. As duas contemplaram sonhadoramente os campos de feno, o riacho, o curral, onde as vacas dos Logans esperavam para ser ordenhadas. O que elas estariam pensando?

Então a nossa Else aproximou-se e ficou bem junto de sua irmã. Mas agora já havia se esquecido daquela senhora brava. Esticou um dedo e deslizou-o pelo chapéu da irmã; sorriu seu raro sorriso.

“Eu vi a lampadinha”, ela disse, suavemente.

Então ficaram em silêncio outra vez.



In. Contos. Trad.:  Alexandre Barbosa, Carlos Eugênio Marcondes de MouraSão Paulo: Cosac Nayf, 2005.