segunda-feira, 9 de maio de 2011

Francisco Perna Filho - Ensaio curto

medo


Medo, um ato de humanidade

                                                                                               

O medo que carregamos é a memória que trazemos das coisas, sem a experiência, não há evocação, por isso é que as crianças são destemidas, carregam apenas o não revelado e obscuro soluço dos deuses. Amedontrar-se é, pois, sentir-se humano e requer coragem para tal.

Há pouco, senti-me totalmente tomado por uma vontade de falar sobre este tema: o medo das coisas, o que buscamos e tememos, o que tememos e não conseguimos buscar, o que, a duras penas, levamos adiante. A necessidade que temos de chegar sempre em primeiro lugar, amedrontando aqueles que nos seguem, que nos acompanham, aqueles a quem dirigimos, aos nossos in-subordinados.

O medo que nos cerca  é, de todo, a arma que temos contra os corajosos, os ousados, os usados. Por que estamos sempre com um pé atrás, prontos para recuar, para dar o grito de alarme e sair correndo e, às vezes, é isso que nos salva, que nos determina como vencedores, como duradouros. O medo é a égide do historiador, ele não participa das guerras, das lutas; não se envolve nas diatribes, por que ele precisa contar os fatos. Alguém tem de contar a história.

O que move os críticos de todas as áreas é, justamente, o medo. Falo daqueles que temem e não se arriscam, jamais, a ousar nas áreas que criticam, preferem ficar na espreita, com um olhar carregado de teoria a mover-se de um lado para outro apenas a falar do que desconhece. Falo empresário que patenteia o invento alheio e, por “medo”, não revela o autor, morre de ganhar dinheiro em cima dele. Do jornalista que se esconde atrás dos fatos, por pura incompetência, valendo-se das agências de notícias e das cópias do alheio. Do professor de Língua Portuguesa, principalmente das universidades, que ensina regras e mais regras do bom falar e escrever e, por medo, fica escondido nas teorias sem nunca se revelar na escrita.

Sentir medo é sentir-se preso e liberto, alegre e triste, fechado e aberto. Sentir medo é ser dúbio, é ser  inconsciente, às vezes inconsequente, porque viver requer pressa e determinação. Uns, aceleram demais e vão-se embora, sem medo, sem ressentimento: “vida louca,vida,vida breve, se eu não posso te levar, quero que você me leve”. Outros, petrificados que estão nas suas prepotências, não enxergam o amanhã, só o agora, o presente que são, para esses, o medo é a força do apego, o delírio da perpetuação.

Quem não tem medo, que atire a primeira bala, o primeiro olhar, como o fazem os pistoleiros que, por medo, atraiçoam; os mandantes que, por covardia, pagam. Os políticos, que seduzem, prometem, e abandonam. Todos medrosos e covardes, revelando o lado pútrido do medo.

Sentir medo é o que nos mantêm calados, é que nos mantêm no emprego, é o que nos faz “ingênuos”, precisamos sentir medo para prosseguir, criar os nossos filhos, conhecer os nossos netos e, se possível protegê-los quando alguém tentar amedrontá-los, como acontece com a minha filhinha, todas as vezes que ela escuta esse grito: oooooolha a  pamonnnnnnnnha!! e corre para os meus braços. É o primeiro exercício de humanidade: sentir medo, um medo instantâneo, infantil, até o próximo e ousado ato. As crianças pertencem aos deuses, nós, ao medo, humanamente ao medo. Até que digam o contrário.


Imagem retirada da Internet: medo