terça-feira, 5 de abril de 2011

JJ Leandro - Conto



Garotas, cuba libre e cigarros




Carolina oferecia a noite para diversão de um adolescente de minha idade no final da década de 1970. E só. A partir da sexta-feira, formava um grupo com amigos do colégio e apostava quem beijaria primeiro uma garota na boate Itapuã. Íamos mesmo a pé porque ninguém tinha carro, chutando gorgulho e cachorro nas ruas sem calçamento até a beira do rio. A Itapuã era um quiosque de madeira, grande e redondo, pregado perigosamente no barranco do Tocantins. De longe o ritmo rebolante da dance music excitava nossas libidos. Lá dentro as meninas esperavam o nosso assédio. Convencional, quase um tácito jogo de gato e rato.
Udinei, baixinho falante, cabelos pretos e lisos, adiantava-se ao grupo, fazia-o estacar quase com a autoridade de um comandante que põe o pelotão em ordem antes da batalha, para defender com ares de péssimo filósofo a igualdade entre os sexos:
— Se nós estamos loucos por uns beijos, elas não estão menos.
Um estímulo e tanto para quem era tímido, a maioria em certa medida, pois inexperientes éramos todos com absoluta certeza.
Crisóstomo, magro desengonçado, olhava-o calado enquanto conferenciava. Após longos tragos no cigarro soltava seu desdém com a fumaça:
— De novo não, né, Udinei.
Meu palpite era que o baixinho não convencia nem a si mesmo, pois voltava para casa sempre invicto, esmagado pela gozação geral.
— O que foi Udinei, nenhuma delas te viu? Não olharam para baixo, foi isso?
Encabulado, perdia a loquacidade na volta. Parecia invisível na noite escura. Às vezes Rocha Filho, por pura compaixão, cingia-lhe o pescoço com uma amigável chave de braço, fazia cafunés em seus cabelos, desalinhando-os enquanto o consolava:
— Amigo, darás um excelente contador. És perfeito com os números.
As tremendas gargalhadas do Samuel, moleque alto e esguio, vestido sempre com esmero, pontuavam o trajeto na volta. Tão mais altas quanto mais bêbado estivesse. A gargalhada destoava do conjunto equilibrado. Explodia como petardo na guerra a cada provocação. Impressionava-me arrancar tão poderoso som de um corpo frágil de bailarino. Quem cruzasse na rua conosco esperava surgir como autor da façanha na noite escura um estivador hercúleo, como os dos barcos do rio, não um rapazote franzino que gomalinava os cabelos crespos.
A invasão da pista de dança, um tabuado suspenso no abismo onde as meninas requebravam soltas aos gemidos de gata no cio de Donna Summer em Love to Love You Baby, não era o primeiro destino na chegada. Havia um rito preparatório, menos regra de uma confraria e mais a tácita e inconfessável incapacidade de abordar as meninas com a cara limpa. Sentávamos em mesinhas no pátio dianteiro, uma espécie de bar, único espaço em terra firme na Itapuã. Ali atacávamos de cuba libre, para colocar rápido a coragem à flor da pele. Lá dentro, os tímidos cordeirinhos viravam extrovertidos leões, virgens pesavam os prós e os contras de seus atos; ainda não era a moda pra valer, mas homem também se travestia: metade homem, metade bicho; decididamente, além de tudo isto, com o Zodiac de Roberta Kelly era impossível segurar peixe no aquário. O jogo de luzes cortava a escuridão paralisando os movimentos das pessoas. Mas fora ainda éramos mais estátuas que os lá de dentro. Tinha vontade, conforme o álcool migrava do copo para a cabeça, de entrar logo e ver o que aconteceria. Mas via nos rostos graves dos colegas, entre goles de bebida e tragos de cigarro, que a precaução ainda conseguia frear a audácia que o coquetel de música e álcool aos poucos fazia crescer. Ainda não é hora, acautelava-me. Só levantávamos dali após muita bagana de cigarro no chão e copos vazios. Estimulados, era o triunfo ou o vexame. Valia a máxima: ou vai ou racha.

Em mais uma noite na boate, senti que chegara minha vez de me dar bem. A loirinha, cabelos curtos batidos na nuca à Jean Seberg, que já vira no colégio algumas vezes, sorria para mim. Inseguro ainda mudei de posição na pista para certificar-me de que não estava na direção de quem ela olhava. Rocha Filho que, apesar das muitas cubas libres a mais que eu na cabeça, jamais perdia o faro de caçador me cutucou:
— É você mesmo, poeta. Ela tá parada em você.
Aproximei-me mais, os colegas incentivando e marcando o ritmo de I Feel Love com palmas. Senti-me na berlinda. Tinha a minha chance, ou me dava bem ou fracassava. Depois outro arriscaria com nova garota. O pisca-pisca das luzes e os reflexos do globo espelhando geometrias nos corpos afundavam a realidade num abismo labiríntico comum a quem está perdido em caminho nunca trilhado. Poeta, ouça Udinei: toda senda resulta em labirinto a quem não conhece o caminho. Mas estavam ali, diante de mim, dentes alvos e perfeitos, boca sorridente que merecia beijos, olhos brilhantes e incisivos na escuridão. Guias perfeitos para atingir o amor livre de qualquer contratempo. Era só segui-los. Mas o que fazer para acompanhá-la em Only the Good Die Young? Me enredava em seus bamboleios. Estava mais desnorteado que o rapaz da música de Billy Joel com sua garota católica. Ouvi um eco longínquo dizer, e era o Crisóstomo: está apanhando feio, hein, poeta? Como numa conjura, Samuel estalou uma das suas terríveis gargalhadas. Fora quem mais bebera. Udinei, a autoestima pisada por todos na pista de dança, com certeza tinha olhos somente para seu infortúnio: já pensava que seria novamente o Cristo da turma.
Linda a minha boneca alemã de porcelana, a minha musa da nouvelle vague. Qualquer um embarcaria na sua onda. Magrinha, beleza displicentemente largada na calça capri e na blusa de algodão branco sem mangas. Um conjunto perfeito para uma noite tropical quente. O desejo é uma armadilha que realça, para nos iludir, as qualidades de quem queremos conquistar. A advertência do pobre filósofo Udinei invadiu meus pensamentos: poeta, isso nada mais é que a cegueira do amor. Quer dizer que você foi fisgado. Às favas todos eles. O corpo da minha Jean Seberg pedia carinho. Toques delicados que a minha inexperiência poderia converter em desastres. A indecisão durou minutos. Para o desenlace, teria que fugir dali. Cacei a mão dela na escuridão e a senti gelada, viscosa, apesar da estufa infernal que era a boate cheia e vibrante. Estava aterrorizada, sem dúvida. Minha confiança cresceu, afinal estávamos em pé de igualdade, como pregava o mau filósofo. Arrastei-a dali, sentamo-nos à mesa colada à parede de madeira. Um janelão abria-se para o precípio escuro, o rio estava logo abaixo. Corria vertiginoso, solerte, traiçoeiro como o amor.
Ainda nos apresentávamos quando o garçom nos atendeu. Cuba libre pra mim, Laura pediu guaraná. At Seventeen abriu caminho aos primeiros carinhos. Começaram nos dedos e prontamente subiram à boca. Ela anuiu encostando a cabeça em meu ombro. Lábios carnudos, doces, saliva, suor e batom. Vertigem com Jean Seberg e Janis Ian. Música alta, Nobody Does it Better. Uma pergunta dela: você é o espião que me ama? Completamente, amor. Tornamo-nos o show da noite. Ávidos beijos, mãos atrevidas e incansáveis que o escuro da boate não ocultava.
O garçom voltou.
— Nada por hora, xará — despachei, a cabeça por cima do ombro dela.
Ele sorriu insistente.
—Jovens, o gerente pediu moderação. O ambiente é familiar.
A escuridão foi incapaz de esconder as faces rubras de Laura. Tornaram-se fluorescentes, destacaram-se. Queria ir embora. Prontifiquei-me a levá-la. O meu irmão tá lá fora, pode deixar, desobrigou-me. Vou com você, obstinei-me. Confusa ainda rendeu-se rápido: você que sabe.
Embananei-me, o irmão dela era o Haroldo, colega de aula. Noivo, não integrava a nossa turma dos finais de semana. Tinha um fusquinha. Abriu a boca quando nos viu juntinhos. Desconcertado, alisou o bigodinho ruivo com dedos de nicotina.
— Mano, me leva embora.
— Agora?
— Sim.
Intrometi-me.
— Vou junto.
Haroldo franziu o cenho, alisou os cabelos finos da cor do bigodinho. Tentando disfarçar o incômodo, queixou-se sem muita ênfase:
— Porra, poeta, tanta garota aí e você acerta logo em minha irmã.
Sorri desconcertado, mas fui autêntico:
— Cara, não sabia quem ela era. Nada pessoal, Haroldo. Bom que agora somos cunhados.
— Você é sem-vergonha — disse num quase sorriso.
Entramos no fusquinha. Na frente, Haroldo e a noiva. Atrás, eu e Laura novamente audaciosos. O garçom ficara na Itapuã.