sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Wender Montenegro - Poema



De choros, sargaços e avencas





Chorar
chorar tão longamente
como se a infância nos regasse ainda
como se o choro contivesse em si
o instante mesmo do parto do mundo;
a ternura crescendo entre avencas
brotando dos olhos dos homens.

Chorar tão longamente
como se ainda nos legasse a infância
velhos desejos, veleidades sólidas
apedrejadas pelo peso do nada.

Chorar tão longamente
até que a dor arraste para o fosso
o sal da culpa, os sargaços,
filhos do choro das pedras
e a compaixão nos conforte em silêncio.

Chorar tão longamente
as borboletas pousadas nos olhos
e um soluço líquido, incontido
arrebentando a represa das mãos.

O meu primeiro verbo foi
chorar.



Imagem retirada da Internet: choro1 choro 2