domingo, 27 de fevereiro de 2011

Maria Teresa Horta - Poema


          
Beijo  
o à vontade das mãos  
na imagem dos homens  
   
O oceano  
por entre o oceano  
   
a paz estagnada  
no contorno dos espelhos  
   
Beijo-te  
na terra à secreção  
dos passos  
   
ódios redondos  
acuado de seios  
   
a noite na espessura    
quente  
das almofadas sem manhã  
   
a imortalidade    
abortada  
que mulheres conduzem  
presas  
pelo ventre e saciadas  
de filhos  
   
Beijo  
o absoluto contido  
nos objetos sem casta  
   
a incerteza branca  
das paredes  
imóveis  
   
a insalubridade arqueada  
no silêncio espesso  
das portas sem casas  
com jardins malogrados  
no início do nada  
como se depois das vertentes  
árvores fossem  
chuva  
ou nuvens fossem árvores  
   
Beijo-vos  
a todos por de dentro  
dos lábios  
   
as línguas da areia  
nas bocas das praias  
   
golfos quadrados  
de alvorarem  
barcos  
   
barcos erectos  
agressivos de mastros  
   
A cidade é nossa  
   
Beijo-te  
na cidade  
nas ruas onde carros  
são flores  
que crescem em ruídos  
de palmas  
   
Beijo-te  
na sede aguda  
que gaivotas têm de céu  
e de estátuas  
   
estátuas anemia  
de cabelos   
em patamares de doença  
   
missivas acres  
de grades aciduladas  
   
a água é no princípio  
das palavras  
   
veia fechada  
saliente nas rochas  
   
água vertebrada  
com pulmões escondidos  
   
Beijo-te  
na água de caules  
sucessivos  
   
O grito é um navio  
perdido  
na memória  
   
Beijo-te  
no vidro  
   
searas verdadeiras  
de cristal p'lo  
ódio  
   
a batalha é o azul  
que deixamos atrás  
   
Beijo  
a súbita vontade  
da vigília dos partos  
os suicídios moles  
com precipícios vastos  
   
as pedras castradas  
nas retinas dos   
gatos  
   
horizonte  
na distância onde o crime  
acontece nas lâminas  
   
Fatos inconcretos  
na geometria  
do medo  
   
as viúvas são laranjas  
vestidas  
de encarnado  
   
Beijo-te  
esquecida na vertigem  
das algas  
   
o vento é oblíquo  
nas âncoras antecipadas  
   
as lágrimas  
são incógnitas  
na orgânica dos sons  
   
Introdução às pétalas  
na urgência da glória  
   
abelhas saqueadas  
na saliva ruiva  
em poentes sem vértice  
a boiarem na pele rugosamente  
opaca  
da lua  
   
A nossa vontade  
é nos ombros das plantas  
orvalho de febre sem objetivo  
   
Beijo-vos  
no bosque onde o animal  
   
é a penumbra  
e os joelhos da luz  
   
cogumelos de asfalto  
no centro de um inverno  
sem notícia nem espanto  
   
Beijo-vos   
prolongada de gerações  
em silêncio  
   
é para nós agora  
a vez  
das planícies que erguemos  
pelas ancas  
na curva onde o hálito  
é ansiedade no homem  
   
são para nós  
as notícias de mortes  
   
necessárias  
na simetria do espaço  
   
Beijo-vos  
nos pulsos de naufrágio  
circulares  
   
a onda é um motivo  
assimétrico de revolta  
   
Fronteiras mutiladas  
cedo  
rente aos cais  
   
Beijo-vos  
na vontade de recomeçarmos  
os olhos  
   
os cavalos  
são paisagens  
e o neon é um cavalo  
de mergulharmos os dedos  
   
Beijo-vos  
a todos nos meus lábios  
onde antiguidade de manhã  
é gaiola insubmersa  
de nunca existirem passos 


                          In. Palavrarte
                          Foto by Francisco Perna Filho