segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Walt Whitman - Poema


CANTO DO UNIVERSAL



1

Vem, disse a Musa,

Canta para mim um canto que nenhum poeta ainda cantou,

Canta para mim o universal.



Nesta larga terra nossa,

Em meio à desmedida vulgaridade e à escória,

Encerrada e segura em seu coração central,

Aninha-se a semente da perfeição.



Uma parte, maior ou menor, para cada vida,

- Nenhuma vida nasce, sem que ela haja nascido - oculta ou à mostra a semente espera



2

Vede! A torreante ciência de olhos agudos,

A modernidade contemplando como do alto dos picos,

A dizer fiats sucessivos e absolutos.



Vede, contudo, a alma acima de tôda ciência:

Para ela a história juntou como cascas em redor do globo,

Para ela todas as miríades de estrelas giram através do céu.



Em rotas espiradas, com longas voltas,

(Como um navio que muito muda de curso no mar,)

Para ela o parcial flui rumo ao permanente,



Para ela o real busca o ideal.

Para ela é que se dá a evolução mística,

Não apenas o correto se justifica, o que chamamos mal também se justifica.



Saindo das máscaras, não importa quais,

Do grande tronco a apodrecer, da astúcia, do logro e das lágrimas

A saúde e a alegria, a alegria universal.



A originar-se da parte principal, do mórbido e do raso,

Da maioria má, das várias e incontáveis fraudes dos homens e dos Estados,

Elétrico, antisséptico, penetrando, cobrindo tudo,

Somente o bem é universal.



3

Sobre a doença e a aflição que crescem na montanha,

Um passarinho jamais apanhado está pairando, pairando para sempre,

Alto no ar mais puro, mais feliz.



Da nuvem mais escura da imperfeição,

Sempre dardeja um raio de perfeita luz,

Um lampejo da glória celestial.



Para a discórdia da moda, do costume,

Para o doido barulho de Babel, as orgias ensurdecedoras,

Suavizando cada bonança uma canção se escuta, escuta-se apenas,

Dalguma praia distante soando o côro final.



Oh! Os olhos abençoados, os corações felizes,

Que vêem, que conhecem o fio condutor, tão fino,

Através do poderoso labirinto.



E tu, América,

Para a culminação do plano, sua idéia e sua realidade,

Para isso (e não para ti mesma) tu chegaste.



Também tu abranges tudo,

Abraçando, levando, acolhendo tudo, tu também, por largos e novos caminhos,

Diriges-te para o ideal.



As fés comedidas de outras terras, as grandezas do passado,

Não são para ti, mas tuas próprias grandezas,

Mas fés e amplitudes divinizantes, absorvendo, compreendendo tudo, Tudo podendo ser escolhido por todos.



Tudo, tudo para a imortalidade,

O amor como a luz silenciosamente envolvendo tudo,

O aperfeiçoamento da natureza abençoando tudo,

As flores, os frutos das idades, pomares divinos e certos,

Formas, objetos, crescimentos, humanidades, amadurecendo em imagens espirituais.



Dá-me, ó Deus, que cante aquela idéia,

Dá-me, dá àquele ou àquela que estimo esta fé inextinguível,

Em Tua totalidade, o que quer que seja recusado não nos recuses,

A crença em teu desígnio envolto em Tempo e Espaço,

Saúde, paz, salvação universal.



É um sonho?

Não, mas sua falta é o sonho,

E, à sua falta, a sabedoria e a vida e a riqueza serão um sonho;

E o mundo inteiro um sonho.




DEUTSCH, Babette. Walt Whitman . Trad. Brenno Silveira e Péricles Eugênio da Silva Ramos. São Paulo: Martins; Colofão, 1965. p.219-221: Canto do Universal.
Fonte: UFRGS
Imagem retirada da Internet: América