terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Fernando Pessoa (Alberto Caeiro) - Poema




    O meu olhar é nítido como um girassol



    O meu olhar é nítido como um girassol.

    Tenho o costume de andar pelas estradas

    Olhando para a direita e para a esquerda,

    E de vez em quando olhando para trás...

    E o que vejo a cada momento

    É aquilo que nunca antes eu tinha visto,

    E eu sei dar por isso muito bem...

    Sei ter o pasmo essencial

    Que tem uma criança se, ao nascer,

    Reparasse que nascera deveras...

    Sinto-me nascido a cada momento

    Para a eterna novidade do Mundo...


    Creio no mundo como num malmequer,

    Porque o vejo. Mas não penso nele

    Porque pensar é não compreender...


    O Mundo não se fez para pensarmos nele

    (Pensar é estar doente dos olhos)

    Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...


    Eu não tenho filosofia; tenho sentidos...

    Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,

    Mas porque a amo, e amo-a por isso

    Porque quem ama nunca sabe o que ama

    Nem sabe por que ama, nem o que é amar...


    Amar é a eterna inocência,

    E a única inocência não pensar...



    In. O Guardador de Rebanhos - Fonte: Insite
    Imagem retirada da Internet: caminhante