terça-feira, 23 de novembro de 2010

Wender Montenegro - Poema


Manoel de Barros

delírios do verbo ou arapucas de pegar Manoel



ao poeta Manoel de Barros



1

as manhãs me imensam

como em Ungaretti

arroios me gorjeiam de esplendor

lá onde as árvores se garçam

e o sol brinca de arvorecer

2

a palavra cansanção tem ardimentos

e o menino descalço nem aí

pois lhe escuda a voz dos passarinhos

esse moleque arteiro estica o sol

carrega o cenho do peru no grito

3

bicho danado é maracujá

engole a voz das ateiras

as mangueiras roubam o sol do chão

e o pé de mastruz

enverdece os ossos da avó

4

mosca de manga

se agiganta no amarelo

como Van Gogh

borboletas adoçam a aridez dos cactos

e o sanhaçu assusta os mamoeiros

5

nas mãos do mar

a linha do horizonte tem cerol

lá, a pipa do céu cai mais depressa

quando as margens da tarde me anoitecem




Imagem retirada da Internet: Manoel de Barros