segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Ludovico Ariosto - Poema


ORLANDO FURIOSO



CANTO I (continuação)


19.
Diz ao pagão: - Cuidas que só a mim,
Mas maltratas comigo a ti também,
Que se agora combates bravo assim
Pelo sol que ardoroso te mantém,
Reter-me aqui que te aproveita enfim?
Pois quer me faças morto, quer refém,
De ti bem longe se achará a senhora
Que, enquanto aqui tardamos, foi-se embora.


20.
Se lhe queres também, será melhor
Procurares detê-la pela estrada
Antes que uma distância inda maior
A separe de nós em sua jornada.
Quando a alcançarmos, seja-lhe senhor
Quem, de nós dois, prevalecer na espada,
Pois penso, aliás, que toda esta detença
Só nos pode servir de perda imensa.


21.
Ao pagão a proposta não despraz:
Eis que adiada assim fica a tenção.
Retorna ao seio de ambos logo a paz,
Caem no olvido o ódio e a indignação.
Deixando as frescas águas para trás,
Que Rinaldo está a pé lembra ao pagão.
Roga-lhe, insta e faz pôr-se na garupa;
Só Angélica alcançar ora os preocupa.


22.
Como outrora eram bons os cavaleiros!
Rivais no amor, a fé os fazia diversos,
Doíam-lhes na carne inda os certeiros,
Duros golpes, recíprocos e adversos.
Mas iam juntos por selvas e carreiros,
sem temer ou nutrir planos perversos.
Sob quatro esporas voava pela estrada
O animal, até achá-la bifurcada.


23.
Aqui chegados, sem saber se ruma
Por uma trilha ou outra a dama bela
(Já que ao olhar sem diferença alguma
Frescas pisadas uma e outra revela),
Convêm em que Fortuna o mando assuma:
Esta segue Rinaldo, o hispano aquela.
Ferraú pelo bosque inteiro gira
Até o ponto alcançar donde partira.


24.
Ei-lo de novo junto da ribeira
No lugar onde o elmo se afundara.
De reavê-lo ao rio, tenta a maneira
(A dama reaver desesperara).
Da margem desce até a extrema beira
Onde a praia das águas se separa.
Mas debalde se esforça e as mãos meneia
Que o elmo bem fincado está na areia.


25.
De um galho desfolhado havia feito,
Para a fundo sondar, vara bem longa,
E do rio esquadrinha todo o leito
Que o varapau o braço lhe prolonga.
Mas enquanto se acresce seu despeito
Pela procura inútil que se alonga,
Das águas, até o peito se descobre,
Com rosto irado, um cavaleiro nobre.


26.
Salvo a cabeça, tinha o corpo armado
E erguia um elmo em sua destra mão.
Era esse mesmo o elmo procurado
De Ferraú, por tanto tempo em vão.
A Ferraú falou, muito agastado,
E disse: - Ó infiel perjuro! Ó cão!
Por que da perda enfim te lamurias
Se o elmo há largo tempo me devias?



Tradução de Pedro Garcez Ghirardi.




In. ARIOSTO, Ludovico. Orlando Furioso. Trad.: Pedro Garcez Ghirardi. São Paulo:Ateliê, 2002,p.55-57.
Imagens retiradas da Internet: livro