quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Antônio Frederico de Castro Alves - Poema


Adormecida



Ses longs cheveux épars la couvrent sonie entière.
La croix de son collier repose dans sa main,
comme pour témoigner qu'elle a fait sa prière.
Et qu'elle va la faire en s'éveillant demain.

Alfred de Musset



Uma noite, eu me lembro... Ela dormia
numa rede encostada molemente...
Quase aberto o roupão.... solto o cabelo
e o pé descalço do tapete rente.

'Stava aberta a janela. Um cheiro agreste
exalavam as silvas da campina...
E ao longe, num pedaço do horizonte,
via-se a noite plácida e divina.

De um jasmineiro os galhos encurvados,
indiscretos entravam pela sala,
e de leve oscilando ao tom das auras,
iam na face trêmulos -beijá-la.

Era um quadro celeste!... A cada afago
mesmo em sonhos a moça estremecia...
Quando ela serenava... a flor beijava-a...
Quando ela ia beijar-lhe... a flor fugia...

Dir-se-ia que naquele doce instante
brincavam duas cândidas crianças...
A brisa, que agitava as folhas verdes,
fazia-lhe ondear as negras tranças!

E o ramo ora chegava ora afastava-se...
Mas quando a via despeitada a meio,
pra não zangá-la... sacudia alegre
uma chuva de pétalas no seio...

Eu, fitando esta cena, repetia
naquela noite lânguida e sentida:
«Ó flor! -tu és a virgem das campinas!
Virgem! -tu és a flor de minha vida!...».


Imagem retirada da Internet: adormecida