segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Deu no Estadão - Harold Bloom e sua seleção de cem poemas

Harold Bloom discute sua seleção de cem poemas

Em entrevista, Bloom fala sobre sua seleção de cem derradeiros poemas de autores de língua inglesa

23 de outubro de 2010 | 7h 00
Lúcia Guimarães - O Estado de S. Paulo

Ele nunca decepciona seus interlocutores. Passional e provocador. Professoral, sempre. Num momento pede socorro à mulher porque derrubou o aparelho de audição ("Está tudo desmoronando por aqui!") e em seguida elogia, sedutor, o que chama de voz maviosa da repórter ao telefone.

Divulgação/Yale University
Divulgação/Yale University
Harold Bloom: 'o propósito de ensinar é estender a bênção da vida prolongada', diz o professor

Toda traquinagem será tolerada.

Harold Bloom acaba de completar 80 anos. No final de 2009, sua saúde o afastou por meses do convívio com os estudantes da Universidade de Yale, onde ocupa a mais famosa cadeira de crítica literária do país. Se você faz 80 anos e passou a vida lendo o melhor da poesia, então, "começa a saber que, diante do morrer e da morte, a imaginação é, ao mesmo tempo, nada e tudo".

Assim Bloom explica seu desejo de reunir cem poemas em Till I End My Song - A Gathering of Last Poems (Até Eu Terminar Minha Canção - Uma Reunião de Últimos Poemas). O título cita o verso repetido em Prothalamion, de Edmund Spenser, o poeta elisabetano, que abre a coletânea. O fim que une os poemas não é necessariamente o fim temporal.

O livro cobre 450 anos de poesia, de William Shakespeare a James Merrill, de Robert Frost a Robert Lowell e termina com o poema The Veiled Suite, de Agha Shahid Ali, indiano de Kashmir morto em Massachusetts, os 52 anos, em 2001 e incluído numa coleção póstuma publicada em 2009. Bloom considera os versos de The Veiled Suite entre os mais obsessivos que trataram da morte.

Apesar do tema e de sua avançada idade, Bloom está longe de se deixar abater pelo assunto. Comemora suas cinco décadas na academia - "Dei aula para cerca de 25 mil estudantes, o bastante para lotar uma cidade" - e conclui: "O propósito de ensinar é estender a bênção da vida prolongada."

Quando telefono para sua casa em New Haven, Connecticut, o professor contorna a primeira pergunta e já sai palestrando sobre a nova obra. "Sim, há um tom um pouco sombrio na obra que inclui poemas de amigos queridos, como Robert Penn Warren, morto em 1989, e Anthony Hecht, morto em 2004. Ainda sofro o luto por eles." E segue, entusiasmado com Till I End My Song. Acompanhe.

Qual é a distinção que o senhor faz entre a finitude da morte e a finitude que encontrou em certos poemas?

Veja que não é uma coleção de poemas sobre a morte e sim uma coleção de poemas que lidam com a incerteza. Todos nós queremos e não queremos saber quanto tempo temos de vida, e esta é a incerteza. Reuni três tipos de "últimos" poemas. Os poemas cronologicamente finais são minoria. Há poemas que marcam o fim de uma carreira. E queria me concentrar também no que considero o auge - o final - de um processo de imaginação.

Por que o senhor diz no livro que estava interessado em conhecimento e não na piedade, no pathos ligado à morte?

Sim, por que dizemos isso? Queria deixar claro que o fim é uma parte importante do conhecimento. Montaigne, o ensaísta maior, nos dá o melhor conselho: "Não percam tempo aprendendo a morrer. Quando chegar a hora, vamos saber morrer direito."

O senhor destaca que os poemas se colocam contra a morte e não contra o morrer.

Sim, a morte é uma ideia. O ato de morrer é diferente. É algo que todos vamos experimentar. Mas a ideia é complicada. Como a ideia da morte não é um modo de existência, a poesia pode nos esclarecer sobre ela.

Por que o senhor considera importante desfazer a mitologia da morte?

Falo da minha própria metafísica. Três poetas que sempre celebrei, Percy Shelley, Walt Whitman e Wallace Stevens, são românticos lucrecianos. Eles seguem a metafísica epicurista, em que a morte é exposta como um filamento da imaginação, um bicho-papão que as pessoas impõem sobre si mesmas. O W.H. Auden e eu discutíamos sobre isso. Ele nem considerava aqueles três poetas, tinha um temperamento forte.

O senhor concorda que o medo da morte é o oposto do gosto por viver?

Com certeza. Não existe essa coisa chamada morte. Shakespeare é o mestre em tratar disso. Como nas palavras finais de Hamlet, "o resto é silêncio".

Na introdução, o senhor manifesta uma esperança de renascimento na Era de Obama, "depois de anos no mato" ("In the bush", trocadilho com o nome do último presidente.)

Eu nunca quero falar em política. Mas confesso que fui um pouco otimista e me arrependo. Eu não imaginava o que ia acontecer. Por favor, pode me citar: os EUA ficaram completamente malucos. Talvez possamos nos recuperar depois que Obama for reeleito. No dia 2, vamos ter eleições e ninguém com acesso à mídia tem a honestidade ou a decência de dizer a verdade. O Tea Party é o nosso movimento fascista. Nem adianta falar em "neo", como neonazistas. É fascismo mesmo. Vários candidatos deles vão se eleger e os democratas vão perder a maioria entre os deputados. Haverá uma total paralisia legislativa. Eles vão instalar comitês de investigação. Se puderem, vão tentar o impeachment de Obama. Os próximos dois anos serão assim. Depois, tenho confiança que aquela mulher magnífica vai ser candidata a presidente e perder. Sarah Palin (Bloom parece estar na sala de aula), uma peça bem acabada de fascismo populista.

Till I End My Song - A Gathering Of Last Poems

Organizador: Harold Bloom

Editora: Harper Collins

(Importado; 379 págs., R$ 56,73)