sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Cláudio Manuel da Costa - Poema


ODES

A MÍLTON

1

Contigo me entretenho,
Contigo passo a noite, e passo o dia,
E cheia a fantasia
Das imagens, ó Milton, do teu canto,
Contigo desço às Regiões do espanto,
Contigo me remonto a imensa altura,
Que banha de seu rosto a formosura.

2

Tamisa, que nos deste
Dentro do seio teu alto engenho,
Que o sagrado desenho
Do divino Poema lhe inspiraste,
Como o cofre dos males derramaste
Sobre a sua fortuna? Como ao Fado
O trazes desde o berço abandonado?

Não basta além da Pátria
Peregrino vagar estranhas terras,
No horror das civis guerras
Ensangüentar o braço às Musas dado,
Da torpe, e vil pobreza inda vexado
Queres que gema, e conte em baixo preço
De seus estudos o cansado excesso?

4

Sim, esta é a ventura,
Estas as murtas, e as grinaldas de oiro
Que ao século vindoiro
Hão de levar os que de Aônia bebem:
Fortuna, os teus tesoiros só recebem
Bastardas Gentes, que da tenra infância
Afagou nos seus braços a ignorância.

5

Tu o sabes, ó Tejo,
O teu grande Camões o geme, e chora;
Nem mais risonha aurora
No Apenino esclarece ao nobre Tasso:
De porta em porta vagarosa, e lasso,
Mendigando o cantor da Grega gente,
O peso infausto da miséria sente.

6

Nega-lhes muito embora
Deusa inconstante as vãs riquezas; tudo
Entre o silêncio mudo
Dos tempos jazerá; a ilustre glória,
Que os nomes encomenda a larga história
Livre de naufragar nesta mudança
Os guarda. e zela na imortal lembrança.

Por ela te contemplo
Calcar, ó Mílton, da desgraça o colo;
Desde o gelado Pólo
Teu nome vencedor a nós se estende,
Em nobre fogo o coração acende,
Quando nos abres a feliz estrada
Da Epopéia jamais de alguns trilhada.

8

A nunca ouvida língua
Das eternas celestes criaturas,
As suaves ternuras
As castas expressões dos Pais primeiros,
De incorpóreas substâncias os Guerreiros
Combates no Aquilon! tudo imagino;
Tudo é grande, ó bom Deus, tudo é divino.

9

Voa do Estígio Lago,
Ó Espírito rebelde: um frio gelo
Me deixa apenas vê-lo!
Tenta a Equinocial, vaga os abismos,
Que horror! Entre funestos paroxismos
Talvez chego a temer, que o Monstro possa
Cantar os loiros da tragédia nossa.

10

Ah não: oiça-se o brado
Da Épica Trombeta: o rapto admiro,
E já no dúbio giro
Longe de me aterrar o Dragão fera,
Arrancadas montanhas ver espero
Do Trono de Sião, vingada a injúria,
Confunde-te, oh soberbo, e rende a fúria.

11

Estranhas maravilhas
De algum gênio mortal jamais tentadas!
Idéias animadas
Na mais nova, mais rara fantasia!
Se Mílton pela mão nos leva, e guia,
Cesse do bem perdido a fatal ânsia,
Esta é de Eden a milagrosa estância.

12

Musas, vós que educastes
Alma tão grande, e que a gostar lhe destes
As doçuras celestes
Do néctar, e da ambrósia, um novo loiro
Vinde tecer-lhe; e junto ao Busto de oiro
Mandai gravar este Epitáfio breve:
Mílton morreu: seja-lhe a terra leve.


In.UFSC

Imagem retirada da Internet: Mundo Paralelo