domingo, 24 de outubro de 2010

Brasigóis Felício Brasigóis Felício - Poeta

Um poeta incomum


Helvécio de Azevedo Goulart, ou simplesmente Helvécio Goulart, como assinava seus textos literários: eis um poeta marcado pela singularidade de uma linguagem que, sendo especialmente sua, é comunicável em sua universalidade, mesmo remetendo o leitor sensível a uma atmosfera lírica incomum, muito longe do trivial. Foi mantendo-se sempre igual a si mesmo, que este mineiro de Itajubá construiu uma história literária em terras goianas, pontificando como dos maiores poetas brasileiros escrevendo em nosso rincão.

Seu currículo literário é vasto, expressivo. Mas foi ele também um homem público de destaque. Ocupou cargos públicos de grande responsabilidade, e em todos demonstrou grande valor e dignidade. Foi Ouvidor Geral do Estado de Goiás, atuou junto ao tribunal de Contas do Estado, Foi chefe do gabinete civil do Governo Leonino Caiado e da gestão de Índio Artiaga, à frente da Prefeitura de Goiânia.

Homem culto, dotado de refinada sensibilidade estética, ao poeta de A janela azul horrorizava toda e qualquer espécie de vulgaridade ou concessão ao mau gosto. Sua poesia tem apreciadores fiéis, cultivadores de sua imagética afeita aos devaneios descritos por Gaston Bachelard. A atmosfera de seus poemas, de um acento marcadamente surrealista, conservou-se a mesma, desde seu livro de estréia, até sua última publicação em poesia. Exemplo de seu lirismo aberto, aparentemente fácil, mas recheado de imagens de grande força metafórica: “Só os que amam compreendem/ só os que amam/loura fonte da vida/Eles se deitam no deserto estendido no chão para dormir/deserto de grandes dunas/do peito dos amantes das gargalhadas/ das lágrimas/ dos telhados amarelos da noite/do olho dos pássaros ocultos nos verdes beirais do sono/só os que amam.../”.

Em nossos encontros na academia, eu sempre lhe dizia que, quando minha atmosfera mental necessitava, para alimentar-se do poético, de beber da fonte de uma poesia pura, voltava a ler os seus livros. E volto a dizê-lo. Pois só se pode dizer que um fazedor de versos é grande poeta, da classe dos verdadeiros vates, quando outros poetas se inspiram em seus poemas. Poema que não inspira outro poema é um fruto peco, falhado, maduro á força – não tem o potencial criador e criativo de grande obra de arte.

Vejamos os versos de um de seus poemas: “Toco as romãs/ com as mãos de meu filho/o mundo se revela/enquanto as janelas se fecham/”. Em seu livro Poemas reunidos, da coleção Vertentes (Editora da UFG) podemos ler esta beleza de composição: “Fica onde estás/com o teu silêncio e o meu/a estreita ponte de palavras/”. Leiamos mais de seu lirismo encantador: “Cada um gasta seu tempo/em ciladas temerárias/como punhais de ouro/e gestos de silêncio/”. Quer maior verdade dita com tamanha beleza? Pois é sabido que a pátina dos dias lança muitos anzóis à passagem dos navegantes humanos – e é preciso lucidez e temperança, para não sucumbirmos ao fascínio dos abismos que o cotidiano lança aos nossos sentidos.

Em outro poema o poeta nos conclama: “Observa os objetos:/de todos eles/emanam respostas do efêmero/(...) Expressam-se todos em silêncio/a lembrança do tempo/que não cessa de rodar/suas pernas de mármore/e de ver a morte/através de cada coisa/com grandes olhos de veneno/e de fogo/invisíveis, abertos para sempre/”.

Helvécio Goulart é autor de uma poesia sensível, mesmo tendo vivido em um tempo anestesiado para a sensibilidade em relação às coisas que de fato importam na vida. Drummond o disse: “As coisas/que tristes são as coisas/consideradas sem ênfase/”. Pois que mesmo a poesia da vida em todas as coisas e em todos os momentos, é preciso ter olhos de ver, e ouvidos de escutar a canção da infinita, a vibrar em tudo o que é efêmero, no na pele das coisas e nos rios do devir.

Embora assumindo-se como poeta de inspiração surrealista, sua poesia não se assemelha à dos corifeus desta vertente estética: é toda dele. Helvécio não foi caudatário nem diluiu ninguém. Só um poeta original e autêntico, enquanto criador, publicaria um livro com o título A janela azul – pois assim ele inverte a direção comum do olhar, que vai da janela para a paisagem, e não o contrário. Outra mostra de sua dicção particularíssima: “Os cavalos sabem a solidão da noite/e talvez nem escutem/o ruído escuro que fazem/no silêncio incomunicável à solidão dos homens/”.

Em texto publicado no DM revista, em setembro de 1977, o poeta Gabriel Nascente assim se expressou, sobre a obra poética deste autor: “Falo de uma poesia que tem idoneidade estética, equilíbrio temático, elegância imagética, esmero, acuidade artesanal, arte, imaginação e fulgor. Sobretudo bom gosto, requintada, jorrante”. Da Janela azul à Memória das águas, um rio de imagens, de um poeta que propugnava pela aristocracia do espírito. Com a palavra o poeta que nos deixou enquanto criatura física, mas que deixou como legado uma riqueza poética que será mais e mais admirada, quanto mais tempo se passar sobre os mortos e os vivos:

“Sobre a mesa o aroma dos pinheiros ficava repousado/nela depositavam-se coisas/vinhos frutas pratos/ as sementes do vento/os olhos acesos da vigília./A hora armava espaços na mesa”.


Brasigóis Felício é Poeta e membro da Academia Goiana de Letras


Imagem retirada da Internet: barco