sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Alexandre Bonafim - Crítica Literária


O Real encantado de Helvécio Goulart




Por Alexandre Bonafim*




Quando encontramos um legítimo poeta ainda desconhecido do grande público (grande?), sentimos certa nostalgia, uma melancolia doce por ser uma descoberta inédita para nós, mas também amarga por sermos os raríssimos conhecedores desse autor quase anônimo.

Helvécio Goulart é um grande poeta praticamente irrevelado. O Brasil como um todo ainda precisa conhecê-lo. Durante toda a sua vida, Goulart erigiu uma obra de coerência exemplar, de fidelidade irrestrita à palavra poética sincera, devotada inteira na busca da beleza e nada mais. Sua escrita lembra a de um Juan Guelman ou a de um Alberto da Costa e Silva (o filho); recorda-me também, em alguns momentos, as epifanias de Clarice Lispector.

Como a autora de Laços de família, o poeta mineiro (na verdade também goiano, pois viveu quase toda existência em Goiás) desvela uma espécie de real desnudo, de espacialidade adâmica, virginal. As coisas despontam num esplendor fulminante, encantatório. Diante de poemas como os de Helvécio Goulart, sentimos uma alegria ingênua: a felicidade de possuirmos um corpo, um lugar no cosmos. Encantamo-nos com um real intensificado, agudo, fulgente. Essa é a paixão da escrita epifânica: transformar a banalidade do mundo em raríssima aventura. É o que podemos perceber, por exemplo, em A beleza:



Alimenta-se a luz

do corpo do pavão;

na cauda esplêndida

gasta-se a cor

multifária

e nas manchas de sangue

da plumagem

no azul e amarelo,

ele e o sol

completam-se, cada um no seu destino.

Leve cair de folhas,

grande a ave se volta

com os seu raios de fogo reprimidos

pela força imutável das origens

a afrontar, impassível,

a beleza traída.

(p. 19)



Nesse texto, uma inversão incomum de valores é de suma importância. O pássaro não é a beleza, mas o contrário: toda beleza verdadeira é um encantado pavão. A inventividade dessa metáfora abre-nos para o feito singelo de descobrir o encanto em sua humilde e avassaladora verdade. Toda beleza sempre nos arrasta com a mesma força inaugural de quando fitamos um belo pavão. Susto. Espasmo. Febre. Estertor. Alegria de viver apesar da morte, da fome, das injúrias da vida.

Algo semelhante se dá em Os objetos, em que a verdade das coisas, a fidelidade à sua justeza é o grande esplendor de todo o existir do nosso olhar:



Observa os objetos:

de todos eles

emanam respostas ao efêmero.



Falam a estante, os livros,

o tapete vermelho, as cortinas translúcidas,

os vasos de cristal, o escuro piano,

os enfeites de metal,

as paredes de pedra.



Expressam-se todos em silêncio

a lembrança do tempo

que não cessa de rodar

suas pernas de mármore

e de ver a morte

através de cada coisa

com grandes olhos de veneno

e de fogo,

invisíveis,

abertos para sempre.

(p. 23)



Se o real alcança sua agudeza pela palavra poética, essa mesma realidade torna-se alumbrada por ser mágica, feérica. Nesse sentido, Helvécio Goulart conjuga em sua escrita duas grandes e fundamentais lições dos surrealistas: o jogo de associações livres de imagens e a descoberta da surrealidade, do âmago, do cerne do verdadeiro real, do real mais verossímil e denso. Podemos perceber essa verdadeira bricolagem de imagens em Os meses:



A doçura de uma vida

cheia do verde luminoso da manhã.

A alegria dos mortos que voltavam

com os rostos cobertos de geada;

muitos vinham de longe

com seus cavalos novos

cheirando a hortelã.

A boca se entreabria

e leve

o sono ressoava

e eram muitos azuis os olhos das meninas

quando a noite as construía.

Lembranças. Histórias apagadas,

mulheres conduzindo maçãs em balaios de vime,

uma rua sem fim no começo da morte.



Quando o frio chegava

todos o acolhiam em seu peito

como se faz com o amor

no meio do verão.

Vinham com ele as namoradas,

as caixinhas de música,

os ciprestes noturnos

e a lua com seu halo de junho.

Era o momento das grandes descobertas,

a hora em que os corpos se queimavam

entre canções, no vento.

A marca dos meses continua nos muros.

(p.38)



Podemos vislumbrar o mesmo efeito em Os cavalos:



Peço perdão porque eu não sabia parar.

Nem a rua me deteve

com suas vitrinas luminosas

e seus metais sonoros.



Peço perdão porque eu não podia morrer naquela hora,

eu tinha que correr

eu tinha

que andar

correndo pela noite.

A vida estava perto

tão próxima,

que quem quisesse poderia tocá-la,

a vida.



A água caiu em minha sede

E de repente os cavalos ficaram amarelos

e voaram.

(p. 49)



Nesse texto, o movimento corporal do eu lírico é irrefreável. Tudo se agita, no poema, numa ansiedade infinita. Movido por uma sede sem nome, sem paradeiro, a pessoa poética anda a esmo, num caminhar misterioso, inescrutável em suas razões, em suas motivações. Esse movimento em moto contínuo se findará, encontrará a serenidade, apenas na epifania a findar o texto. A sede cessa quando os cavalos tornam-se ouro e magicamente voam. O desassossego finda-se na imagem lírica de grande singeleza e simplicidade, desemborcando em uma enseada de leveza e serenidade.

Determinados leit motivs consagram a escrita de Helvécio, pontilhando-a de símbolos emblemáticos, verdadeira chaves de entrada para os seus significados profundos dos textos (ainda a serem explorados por leitores e críticos): a criança, a estrela, o canário, as flores, os cavalos e etc. Se em cada poema eles ganham conotação singular, em todos os textos eles colorem as paisagens, imprimindo um tom pitoresco, campesino, bucólico à sua escritura. É o que podemos notar no belíssimo ciclo de poemas intitulado Crianças fontes estrelas canários:



1

As estrelas

dominavam o entardecer

dos dias antigos

e os canários conduziam

as árvores para a fonte

das primeiras crianças



[...]



7

Árvores e crianças

dominavam

os antigos canários

as estrelas

do entardecer

e os conduziam

à fonte dos dias

(p. 102-103)



Só quem conhece Goiás sabe o quanto essa geografia está viva na escrita desse mineiro goiano. Com seus flamboaiãs e ipês, suas árvores frondosas, Goiás respira inteira na escrita de Helvécio. Perto dessas árvores estamos também próximos de Deus, abraçados à poesia. E poucos como Helvécio sabem dessa verdade tão simples, tão singela.



GOULART, Helvécio. Poemas reunidos. Goiânia: UCG, 2007.


* Alexandre Bonafim é Professor Universitário, Doutor em Letras, Poeta e Crítico Literário.



Foto by Ana Carolina Pires: Pastor