terça-feira, 28 de setembro de 2010

Isabel Dias Neves – Belinha - Crônica

RECADO A QUEM VIVE NO CERRADO



Viemos a este mundo para aproveitar a vida! Se isto é verdade, nada melhor que usar a natureza para tornar a existência mais prazerosa. Assim, não ligue para as idéias desses ambientalistas nem para as campanhas dos órgãos públicos sobre meio ambiente! Eles estão com os bolsos empilhados de dinheiro. Não pare de usar o Cerrado. Abuse mesmo dele, um biomazinho que nem patrimônio nacional é. Até agora, só conseguimos destruir 48,4% do seu patrimônio. Temos que ser mais eficientes!

Comece a trabalhar pela sua casa. Se houver árvores na calçada, corte-as. Assim, o vento fica mais livre para nos acariciar a pele e o sol, bem mais solto para nos iluminar e aquecer. Dizem que duas árvores substituem um aparelho de ar condicionado, mas chique mesmo não é ter muitas máquinas em casa? Para que sombra? Tem muita gente desocupada e folgada deitada debaixo de árvores. É verdade que elas transformam gás carbônico em oxigênio. No mais, é exagero de cientista. A gente até já se acostumou com o gás carbônico! Como é bonito ver esse mar de carros e motos engalfinhando-se nas ruas e avenidas, lotando todo o espaço! Quando a fumaça que eles expelem estiver muito densa, é só virar o rosto para um lado e seguir em frente. Você já viu alguém morrer, de repente, por causa de poluição?

Agora, em tempos de eleição, solte fogos à vontade. Os comícios ficam bem mais animados e convincentes. Quando sobe às nuvens, o foguete engole oxigênio e solta dois tipos de outros gases tóxicos. Não dê importância a isto. Esse tal oxigênio a gente nem vê, não é mesmo? Se velhos e crianças ficarem com medo do estrondo dos foguetes, que tampem os ouvidos. É muito emocionante vibrar com o volume dos decibéis que o foguete emite, não acha?

Lave a sua calçada com água tratada mesmo. As Companhias de Água tiram muito dinheiro do nosso bolso. Tome seu banho demoradamente. Dá um enorme prazer. Ao escovar os dentes, deixe a torneira aberta. É poético ouvir o barulhinho da água escorrendo na pia. A vida precisa de mais poesia. Além disto, temos 2,66% de água doce em todo o Planeta Terra e 20% de tudo isto está no Brasil. Não há, pois, razão para economias.

Você não considera fantástica a invenção dos plásticos? Eles facilitam demais a nossa vida e, assim, podemos ter mais tempo para o lazer. Chato é suportá-los após o uso. Livre-se, então, deles, jogando-os nos rios e riachos que são muito preguiçosos. Demoram 400 anos para destruírem material plastificado, mas, no final, fazem seu trabalho direitinho. Em mananciais ricos em plásticos, os peixes desaparecem, porém, há muita carne bovina para o churrasco e outros pratos deliciosos. Os pastos estão abarrotados de boi gordo para o corte e para o lucro! Isto não é bom?

Você está percebendo que vendavais, enchentes e secas estão ocorrendo por esse mundo afora? É lamentável, não é? Mas, por que o povo dessas lonjuras não se cuida? Por que não muda de lugar? Por que não destitui seus governos corruptos? Nós é que temos sorte. Este calor e sequidão, de agora, é por pouco tempo. Além disto, estamos distantes de tragédias. Nossos governantes cuidam muito bem da nossa vida, trazendo-nos progresso. São honestos e só pensam no bem público. É verdade que, de vez em quando, alguns escorregam, mas são humanos e trabalham demais também.

Alguma coisa do que foi dita até agora está sustentada pelo Paradigma Científico, idealizado por Descartes, Newton e por outros cientistas ilustres. Segundo uma das suas idéias, que já duram 300 anos, a natureza tem que colaborar com a ciência, deixando-se torturar para dar lugar aos inventos. Afinal, não é a ciência que está salvando e alongando nosso tempo de viver? Boa vida para você


Isabel Dias Neves é Mestre em Educação, poetisa e escritora. E-mail: labelle@brturbo.com.br


Imagem retirada da Internet: cerrado