domingo, 5 de setembro de 2010

Brasigóis Felício - Poema



A FEIRA DO POVO




No sertão nordestinado

a feira do povo

é uma economia de centavos


São ovos ambicionados

de um viver sextavado


Um real é dinheiro digno

de consideração e apreço


Galinha do pé seco

não dá pra quem quer


Zé da buchada quer enricar

só de as destripar


Mais velha que as penosas

só a perpétua necessidade


Manga e mamacadela

fazem lama de derrama


Quem vendeu umbu a beça

agradece a Deus, alegroso,

com um sorriso banguelo


Pitomba e melancia

entram em promoção

depois que se desmancham:


“Comprem de mim,

que minha minhas irmãs estão buchudas,

e minha mãe vai parir!”


O chão é azinabrado pelo sangue

de animais estripados

à vista do freguês


Que é para ele ver

o quanto é duro morrer

Cabeças de bode,

de porcos e vacas nos fitam

com olhar esbugalhado

Na feira do povo

muitos têm que morrer

para sustentar a fome eterna

dos que só vivem para comer


A freguesia vem do agreste

onde só vive cabra da peste

calcinado na caatinga

onde a vida é bem mofina


Da vida ávida por viver

é feita a feira do povo:


O desespero é gritado

no rebanho de condenados

do sertão nordestinado.



Foto by Arthur Soares: feira