quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Brasigóis Felício - Crônica


Cidades do cio



Lá se foram 40 anos da publicação do livro de contos A cidade do ócio, de José Mendonça Teles – uma obra que, junto ao romance Antes das águas, de Anatole Ramos, inscreve-se como iniciadora da ficção urbana em Goiás. Muito justa sua inclusão, pela PUC-GO, na lista das obras de leitura para o Vestibular 2011. Uma fortuna crítica substanciosa assinala importância como documento ficcional revelador das angústias, conflitos e tensões humanas da trepidante e perigosa metrópole em que se transformou nossa capital.

Escreveram sobre este livro, em prefácio, Edla Pacheco Saad, Maria Terezinha Martins, José Fernandes, Nelly Alves de Almeida, Temístocles Linhares, Paulo Nunes Batista, Anatole Ramos, Gabriel Nascente, Almeida Fischer,Martiniano J. Silva, Edvaldo Nepomuceno, e este cronista. Em outubro de 1971, publiquei no Suplemento Literário do O Popular o artigo A idade do cio no Ócio da cidade. Disse à época, dos flagrantes captados pelo olhar atento de cronista, de José Mendonça Teles, ao mostrar a mente fragmentada e caótica dos habitantes do formigueiro urbano, em sua busca aflita – e por vezes doentia – de prazeres lícitos ou ilícitos.

Vemos um mundo de gente comum, vivendo fugas noturnas de vícios e contravenções, que são fugas da rotina doméstica, do trabalho ou do ócio. Seus personagens, envolvidos em tramas previsíveis e cotidianas, protagonizam espetáculos deprimentes, reveladores do vazio existencial, e da busca neurótica por sensações físicas que são efêmeros abismos de prazer. Sem se darem conta de que não passam de sonâmbulas, pessoas tristemente normais, entregam-se ao rito da paquera e do comércio do sexo, sabendo-se que a prostituição é a mais antiga das profissões.

A teoria da realidade líquida nos diz que, nas cidades vertiginosas, de instante a instante, novos personagens configuram diferenciados dramas existenciais, na retratação do vazio de criaturas que buscam no sexo casual o preenchimento da náusea de existir para nada. Sublimação do machismo, por parte de paqueradores inveterados, indo de encontro à abundante oferta da profissão inerente à condição humana, eis o universo do animal humano, retratado pelo autor. No conto “O jogo do bingo”, o Zé observa que todos querem ser caridosos, quando pensam que seu ato filantrópico pode lhes trazer algum proveito. No conto “Meu Natal”, entristece-o ver crianças de rua, famintas e mulambentas, disputando alimento no lixo, com cães sarnentos.

Um homem doente mede as paredes de seu quarto, a solteirona vê a vida e a beleza esvaírem-se, na passagem do tempo; o homem de negócios às volta com o fracasso financeiro, com o olhar voltado para as pernas que passam: pra que tanta perna, meu Deus, se ele está quebrado. São flashes do olhar compadecido aos solitários vampiros da noite, a contar com a cumplicidade necessária das suas vítimas - revelam a evasão e fuga da realidade, a pressa e o medo do ser humano, anônimo e aflito, em meio à multidão. Serão retratos contundentes e amargos do ócio da cidade? Ou são sinais sombrios da época dos tristes, de um tempo de desesperados e aloprados, como estes que vivemos agora? a mais antiga das profissue a prostituiçda paquera e do comsca neurte, Almeida Fischer.