segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Valdivino Braz - Coletânea


PASSOS PASSADOS


Passos que esbarram
nos cristais do orvalho
e roçam nas belas imagens
dos caminhos de pólen e pétalas
por onde pervagueia
minha infância descuidada
meus pulos descalços
ressoando no solo
E minhas mãos querendo alcançar
os pássaros que voejam
no claro espaço das manhãs
meladas de sol.
Passos que se apagam
nos remotos arrebóis
longínquos de mim.
In. A palavra por desígnio


Melancolia Telúrica

V

A hora mais triste da terra,
quando o sol se apaga e a dor é solitária.
Hora de amargura e desespero das almas.
Punge, confrange, apequena, aniquila,
faz-nos sofrer, a luz do dia
que pouco a pouco já não brilha.
Que agonia!
O que fazer para não morrer?

VI

A hora tristonha,
chapada pela luz agonizante do crepúsculo,
hora em que a terra parece não mover
um músculo sequer.
Os paturis se foram já embora,
logo a inquietante quietude das sombras
e os brilhos da noite imperam na água imóvel.
Vitrificada pelo reflexo da luz,
a lagoa se arredonda num espelho cósmico.
Ê mundo melancólico!
Ô lua sonambúlica!
Que noite é essa,
que a tudo abarca
pra Terra do Nunca?
In. Poema da terra perdida


O LABIRINTO EM FLOR


Pensar, pensar, até florir,
incendiar-se o labirinto em flor.
Arranjos florais de uma desordem
— girassóis-girândolas em chamas —,
O caos dentro de sua própria ordem.
Penso a palavra
e se deságuo emoção,
aí procura a razão.
No caos entre uma e outra,
me sustento.
O caos cria, desfaz, diferencia.
Não me construo com a forma,
antes me desmorono,
mais familiarizado com o fundo,
minha fôrma.
Pêndulo no fio de equilíbrio
— gangorra absurda
e um visgo de nada —,
crio vertigens,
vejo o fundo de sangue do que sou.
Imenso, o abismo de um verso.
Me solto do fio,
no fundo me arrebento,
e me incendeio.
Sílex, antes que Fênix.

OS PORTAIS DE AURORA


Ó estúpida,
Desgraçada lucidez!
Quantas auroras são em seu relógio?
A hora clara e o sol,
ovo estrelado
na frigideira do dia.
Tartarugas
— tártaras rugas —
num rolo de tarugos.
Este é meu chão.
Devo envelhecer-me ao sol,
apaziguar meu coração.

In. As lâminas de Zarb
Imagem retirada da Internet: Braz