segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Brasigóis Felício - Ensaio Crítico





Clarice, uma viagem na noite



Brasigóis Felício





Clarice Lispector, a escritora, tendo sido estrangeira em sua pátria, sabia ter vindo ao mundo para ser uma outsider, estrangeira em si mesma, desterrada em sua pátria, sempre a viver apartada do rebanho dos contentes. Ou dos mortos vivos, se preferirem. Onde quer que fosse, veria as coisas e as pessoas com a solidão dos desterrados. Sabia que seu (nosso) futuro é retornar à noite eterna da substância dos sonhos, ou do nada, de onde viemos; pois de sonhos, nada mais que sonhos, é a matéria somos feitos. E mais não somos senão fantasmas em um balé de mascarados, a encenar a crônica do absurdo.


Muito cedo, desde sua infância sofrida, com a mãe doente, e o pai a se consumir em trabalhos de Sísifo, para escapar à miséria - que só assim se nos transformamos – no fulgor da luta pela sobrevivência em um mundo que a tudo perdoa, menos o fracasso. Desde menina ela sabia ser este mundo o lugar onde matamos em nome do amor, de Deus ou da Pátria, sendo natural o sufocarmos aqueles a quem mais amamos. Com o tempo, começou a ter certeza de que nada vale ter uma mente seletiva, e só lembrar coisas boas, pois estas podem ser justamente aquelas que nos enganam, e nos tiram do caminho do auto-conhecimento.


Todos vivemos, trabalhamos e amamos usando máscaras. É impossível evitar isto; “Escolher a própria máscara é o primeiro gesto voluntário humano. E solitário. Mas quando enfim se afivela a máscara daquilo que se escolheu representar-se e representar o mundo, o corpo ganha nova firmeza, a cabeça ergue-se altiva, como a de quem superou um obstáculo. A pessoa é”. Durante toda sua existência Clarice Lispector foi acossada pela sensação angustiante de não possuir ninguém, nem de pertencer a nada, nem a si mesma. É o exílio sem retorno de não ser quem somos – uma ferida que dói como um dente cujo nervo se acha exposto: “Com o tempo, sobretudo nos últimos anos, perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. E uma espécie de solidão de não pertencer começou a me invadir como heras num muro”.


Clarice era misteriosa, em sua simplicidade. Não queria que a mitificassem por haver nascido em uma província, perdida nos vastos espaços da Rússia: ‘Não tenho sotaque, o que tenho é língua presa”. A fotografia flagra o instante do corpo, não a qualidade do Ser. E não desvenda os caminhos do destino que o ser vai construindo. Cada criatura humana vai construindo sua jornada conforme os pensamentos e atos que plasmam a sua alma. A saga em que podemos ser invencíveis guerreiros é ser quem somos.


A falta de método é em Clarice o que a faz completa. Seu discurso sem lógica, feito em camadas de impressões, devaneios de epifanias, vai na leveza de quem descobre que ser livre é aceitar pagar o preço do perigo de viver. Ao libertar-se do reducionismo forma x conteúdo, arrebenta as comportas inúteis de “ser ou de escrever”. E por não entender as poesias de Drummond, a partir de frias análises estilísticas, ficava irmã de sua poética, sendo ela mesma não uma mulher que escreve, mas uma atmosfera.


Quando enfim chegou ao limite de sua viagem “Dentro da noite veloz”, no que precedeu o acontecimento de sua morte, decorreu sua agonia e seu êxtase. Tendo vivido, desde a infância, no limiar do abismo, foi só às vésperas de morrer que teve vontade de viver. Mas era tarde. Já a esperava a escuridão da noite eterna, vibrando em átomos, elétrons, prótons, nêutrons, mesons, quarks, e na impalpável substância do perdão, que só encontrou quando era tarde demais. O que sempre acontece com a maioria dos viventes. “Na véspera da morte, Clarice estava no hospital e teve uma hemorragia muito forte. Ficou muito branca e esvaída em sangue. Desesperada, levantou-se da cama e caminhou em direção à porta, querendo sair do quarto. Nisso, a enfermeira impediu que ela saísse. Clarice olhou-a com raiva e, transtornada, gritou: “Você matou meu personagem!”.