segunda-feira, 26 de julho de 2010

Gerardo Mello Mourão - Poema




SUÍTE DO COURO - 1
CHÃO DO PAÍS




Do alto destes céus aeronáuticos o poeta
contempla o chão da capitania - província, país,
[país hereditário, digamos -
Onça, leopardo seria - é um boi ou boi - fora boi -
Couro duro esticado - malhas malhadas
Secando ao sol ao vento à solidão.

De couro é aquele chão aquela chã
Couro estendido em varas
Pontudos marmeleiros vão secando também -
O couro estende
Suas manchas de pêlo sobre
Matos magros de campina caatinga tabuleiro
Ravinas e barrancos - sobre
Serranias de antigos nomes.

De olhos secos uns viventes de couro
Cabra novilhas éguas e outras pessoas
Caminham sobre
Chão de couro entre cinza e carvão
De apagadas coivaras.

A mancha ao longe água seria - poço
De rio adormecido - miragem de areia seca
Crescida à lágrima nos olhos:

Esperança de súbitos sertões por onde
Urram saudosos bois nos alagados
E na memória de seus pastos bons.

Em maranhões emaranhados
No chão de couro pelas paraíbas
Piauís pernanbucos siarahs até
As bahias malhadas onde

Seca ao sol o couro cru: - ali
Sobre couro marcado a ferro de algum santo ou paróquia
No lombo do chão uns fantasmas passeiam.

Das alagoas de Tanque d'Arca ao sergipe antigo
Até Geremoabo até
O Raso da Catarina. Talvez ladeiras de outros lados
Mombaças Araripes Contendas Borboremas até
Neste país nosso - de couro nosso - toda esta
América nossa - Argentinos e Chiles, Paraguais -
América de couro e couro
De cada um de nós
Nicaráguas e Texas e Méxicos além.




Imagem retirada da Internet: gibão
In.Algumas Partituras. Rio de Janeiro: Topbooks, 2002, p.13-14.