terça-feira, 11 de maio de 2010

Valdivino Braz - Poema

OS DESAMORADOS



Penso na mulher que amei

com o meu amor distanciado.

O tempo e a distância fizeram-nos frios,

mesmo quando juntos,

com os abraços do constrangimento.


Ah, foram difíceis nossos abraços,

carentes, mas desamorados!

Incômoda a compaixão por uma estranha

que me deixava, em seus braços, deslocado.


E assim minha mãe se foi embora deste mundo,

sem que eu aprendesse a amá-la como devia,

nem nunca me sentir por ela amado.

Ó mãe, amamo-nos ao nosso modo,

um do outro que fomos sempre separados?


Muito me bateram na vida,

menos minha mãe com suas mãos ausentes.

Minha mãe completamente

analfabeta e falta de filhos;

pariu quatro — eu vazio dela,

falto me fiz.


Foi ao morrer que ela me bateu pela única vez.

Foi.

E quem disse que palmada de mãe não dói?

——

Poema extraído do livro Arabescos num chão de giz — Prêmio Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos (Goiânia, 1988); Menção Honrosa, sob o título Cantos do Carbono, na 1ª Bienal Ímpar de Poesia Estância Itanhangá (Goiânia, 1987/1988).


Imagem retirada da Internet: mãe