segunda-feira, 10 de maio de 2010

Carlos Drummond de Andrade - Poema



Maternidade



Seu desejo não era desejo
corporal.
Era desejo de ter filho,
um só filho que fosse, mas um filho.


Procurou, procurou pai para seu filho.
Ninguém se interessava por ser pai.
O filho desejado, concebido
longo tempo na mente, e era tão lindo,
nasceu do acaso, o pai era acaso.


O acaso nem é pai, isso que importa?
O filho, obra materna,
é sua criação, de mais ninguém.
Mas lhe falta um detalhe,
o detalhe do pai.


Então ela é mãe e pai de seu garoto,
a quem, por acaso,
falta um lobo de orelha, a orelha esquerda.



In. O Corpo.