quarta-feira, 21 de abril de 2010

Raúl Antelo - Entrevista



Entrevista com Raúl Antelo - 1ª PARTE



A poesia sem trégua



Professor titular do Departamento de Língua e Literatura Vernáculas da UFSC, Raúl Antelo, além de ter sido professor visitante nas universidades de Yale, Duke, Texas at Austin e Leiden, na Holanda, presidiu a Associação Brasileira de Literatura Comparada (Abralic). Autor de vários livros, dentre eles, Literatura em Revista; Na Ilha de Marapatá; João do Rio: o Dândi e a Especulação; Transgressão & Modernidade, o intelectual de nacionalidade argentina, porém de alma brasileira, fala sobre os processos de difusão da poesia partindo da Europa, passando pela América Latina e culminando com Goiás. Discute, ainda, o esvaziamento das instituições públicas, a educação pela arte e alguns dos grandes nomes da literatura. Confira a entrevista cedida com exclusividade ao Jornal Opção.

Francisco Perna Platão expulsou a poesia de sua República. O senhor acha que ainda há espaço para a poesia no mundo moderno?

Sem sombra de dúvida que há. Há exemplos eloqüentes. Contudo, a poesia me parece nem sempre se encontrar onde ela é proclamada; nem sempre poeta é aquele que se diz poeta.

Francisco Perna A poesia é fundamental? A pergunta se dá pelo materialismo expresso na vivência cotidiana. A poesia parece não se estabelecer de uma maneira concreta a partir do momento em que não se percebe como ela se instaura, como se pode apalpá-la. O senhor, apalpa a poesia?

Para mim a poesia é fundamental. É possível que para muita gente não seja, mas eu só posso lamentar por essas pessoas. Quanto a apalpá-la, mas é claro, meu trabalho é palpar. Muitos a apalpam sem perceber, porque a apalpam em outras áreas. Quando um antropólogo se pergunta sobre o compromisso que ele mantém com, sei lá, uma comunidade indígena a qual ele vai entrevistar, colher um testemunho, um depoimento, ele se apresenta como mediador, como alguém que divulga a cultura dessa comunidade para a comunidade científica; está fazendo perguntas poéticas. Quem fala, quem é o sujeito, são típicas perguntas poéticas. A mesma coisa é o historiador. Quando o historiador se interroga sobre a verdade dos fatos, como concatenar um fragmento com outro, que verdade extrair de uma seqüência de acontecimentos, isso é, como construir um evento, ele está fazendo perguntas retóricas. Quando um advogado cria uma argumentação para defender uma causa qualquer, são enunciados poéticos que ele elabora. Provavelmente muitos desses profissionais nem desconfiam o que estão fazendo; estão fazendo poesia, estão apalpando.

Francisco Perna — Qual a importância de um evento como o I Festival de Poesia de Goyaz?

Eu acho, a princípio, salutar a reunião, mas desconfio do rendimento das reuniões públicas. Confesso que esses festivais, congressos, me interessam muito mais pelas conversas de corredor, pelos jantares, do que pela instância pública, visto estar ela muito esvaziada. Acho que também não há uma cumplicidade nos repertórios, o que impede ou mesmo dificulta o diálogo. Tenho observado nos debates um certo solilóquio, uma certa esquizofrenia, quer dizer, o conferencista fala alguma coisa, o público pergunta o que bem entende e custa a se amarrar uma ponte entre o que cada uma dessas instâncias está propondo; ao passo que, justamente nos encontros de corredor, nos jantares, aí, sim, se armam as afinidades. “Não há uma ética, tanto dos estudantes que se inscrevem e não comparecem quanto a nossa ética, dos participantes, de não podermos explicitar uma diferença leal, franca, aberta, com relação uns aos outros”

Priscila Marília Martins — Há algo nesses diálogos velados que não possa ser explicitado ao grande público — sobre os bastidores da produção crítica e poética da atualidade —, ou apenas figura uma política do não-confronto, uma “ética” do silêncio? O esvaziamento de funções da instituição pública, que forma esses intelectuais, não dá retorno à sociedade.

É como se as pessoas não quisessem explicitar as diferenças, não fosse conveniente, predominassem as políticas da boa vizinhança, de compadrios, de interesses de ocasião, ou que nome tenha. Isso parece ser mais importante do que qualquer outra coisa. Nas oficinas, a caricatura é justamente do esvaziamento da instituição. Acabo de assistir a uma oficina de um poeta, Manuel Ricardo de Lima, na qual havia 250 inscritos, ou seja, capacidade de ouvintes esgotada, mas na oficina não havia mais de 15, porque os 230 e tantos restantes vão receber o certificado de participação, porque, claro, ninguém vai controlar os que estiveram presentes ali. Isso te fala que as instituições públicas estão falidas, não há uma ética, tanto dos estudantes que se inscrevem e não comparecem quanto a nossa ética, dos participantes, de não podermos explicitar uma diferença leal, franca, aberta, com relação uns aos outros. Acho que na dissidência está uma maneira do respeito pelo outro, não devemos nos confundir. Eu poder discordar não quer dizer que eu seja inimigo; posso ser eventualmente adversário, mas não inimigo.

Francisco Perna — O senhor, como participante de um evento no qual decidiram homenagear Manoel de Barros, como vê, por exemplo, o desconhecimento de sua poesia pela maior parte das pessoas participantes do evento? Trata-se realmente de uma homenagem?

Uma coisa é a decisão da homenagem, que não sei de quem partiu, se simplesmente de organizadores, dos participantes. Os participantes não têm por que endossar os critérios da homenagem, eu não tenho por que endossar o critério do júri que concedeu os prêmios. Custa-me acreditar que Marcos Siscar, por pior que seja o seu livro inédito, que portanto não li, seja pior do que o primeiro colocado. Acho Marcos Siscar uma das vozes mais adultas da poesia contemporânea. O júri terá tido as suas razões para preferir outro livro ao do Marcos Siscar, os organizadores tiveram os seus motivos para escolher Manoel de Barros como homenageado. Não me cabe questionar isso.

Priscila Marília Martins — Parece-me incongruente a não-escolha de Cora Coralina, por exemplo, que é da própria cidade e tem uma visibilidade muito maior fora dela. Afinal, está fazendo 41 anos de sua primeira publicação e muitos nativos não leram sequer um poema seu. Os critérios da organização, se é que houve, não nos cabe julgar. Mas, saltando dos becos de Goiás para as quinas da América Latina, gostaria de saber o que senhor acha: o Neruda lírico, com o passar do tempo, suplantou ou não o Neruda engajado? Aproxima-se de Walt Whitman?

Os chilenos, que são ardorosos pensadores da própria literatura, cujo carro-forte é a poesia, se dividem, assim como os cubanos, em dois times: o de Neruda e o de [Vicente] Huidobro. Quem gosta de um não pode gostar do outro. Os cubanos se dividem entre pinheiristas e lezamistas. Quem gosta do Virgilio Piñera detesta Lezama Lima, e quem admira Lezama fala peste do Virgilio Piñera. O Neruda ideólogo, digamos, o Neruda comunista, tem um interesse anedótico, que é o interesse do comunismo como paixão do real. Refiro-me ao real não como aquilo que é realidade, mas como aquilo que não cessa de não se escrever, aquilo que retorna sempre. Acho que a posição do comunismo ao longo do século XX é, talvez, uma das mais emblemáticas ilustrações dessa paixão do real. Neruda é um stalinista de carteirinha. A pergunta que a obra, que a reflexão que Neruda nos coloca, é: como foi possível querer crer, durante tanto tempo, que a ruptura podia se dar ao preço de uma depuração tão obscena? Que para chegar à revolução fosse necessária tamanha depuração? Linhas de montagem de mortos na União Soviética, sobre as quais não se podia falar porque, em tese, era uma violência santa. Isso está absolutamente datado, é a parte mais interessante da obra dele. O Neruda lírico acho um bom poeta, entretanto, está aí um poeta com o qual não tenho muita sintonia, tenho que admitir.

Quanto a se aproximar de Walt Whitman, sim, sem dúvida, pertence a essa linhagem. Mas insisto: me sintonizo muito mais com as especulações sobre Huidobro. Acho que ele era um artista talvez mais completo que Neruda, mais difícil talvez, mais hermético com certeza, mas não menos engajado que ele. Huidobro era também um cara extremamente militante, claro, de posições trotskistas, posições mais radicais. A história sorriu muito mais para o Neruda que para Huidobro, mas talvez caiba a nós reivindicarmos esses poetas que ficaram no meio do caminho.

Goiânia, maio de 2006.

CONTINUA NA PRÓXIMA EDIÇÃO.

Foto by Nena Borba