sexta-feira, 9 de abril de 2010

Heloísa Buarque de Holanda - Entrevista


Esta entrevista com a professora e crítica literária Heloísa Buarque de Hollanda, concedida à publicitária Tainá Corrêa e aos escritores Carlos Willian Leite e Francisco Perna Filho, foi originalmente publicada no Jornal Opção e na Revista Bula.




ENTREVISTA COM HELOÍSA BUARQUE DE HOLANDA




Heloísa Helena Oliveira Buarque de Hollanda é ensaísta, escritora, editora, crítica literária e pesquisadora brasileira. É também Professora Titular de Teoria Crítica da Cultura da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, coordenadora do Programa Avançado de Cultura Contemporânea (PACC/UFRJ) e da Biblioteca Virtual de Estudos Culturais (Prossiga/CNPq) e diretora da Aeroplano Editora Consultoria Ltda. Foi também Diretora da Editora da UFRJ e do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro.


Francisco Perna Filho – Passados vinte e oito anos da primeira edição da antologia “26 Poetas hoje” que, naquela época, foi tida como ousada ao propor, no seu prefácio, uma subversão da expressão intelectualizada; a recuperação do coloquial numa determinada dicção poética, bem como, um circuito de produção e distribuição independente. Para senhora, os resultados foram satisfatórios. Fale-nos um pouco sobre isso.

Heloísa Buarque de Hollanda - Para mim foram satisfatórios e ao mesmo tempo inesperados. Satisfatórios porque me interessava estimular o debate entre os pesquisadores e criadores de literatura sobre a quebra de paradigmas que se processava naquele momento em todas as áreas do conhecimento e da produção artística. E isso foi muito bom. Na repercussão crítica da antologia, fosse ela negativa ou positiva, discutiram-se como nunca as questões de valor, qualidade, tendências e relações da literatura com o mercado editorial e com a sociedade em geral. Inesperados porque aqueles poetas rebeldes e marginais de ontem entraram para o cânone literário.

Carlos Willian Leite – A poesia marginal foi mais um sintoma de uma época do que uma elaboração da linguagem. Passados 30 anos, por que continua existindo esse fascínio exagerado com os poetas malditos?


Heloísa Buarque de Hollanda - Porque a maldição é fascinantes mesmo. Ela contém uma taxa alta de resistência, de atuação fora da norma, de liberdade, que se oferece de forma irresistível para os criadores e para nós, pobres trabalhadores intelectuais com baixa expectativa de transformação a curto e médio prazos.

Francisco Perna Filho – Recentemente, o autor Bernardo Carvalho, no seu Romance Nove Noites, ao misturar ficção com fatos reais, demonstrou-nos quão tênue é a linha entre ficção e realidade, o que, para muitos, apesar do caráter verossímil, soaria como falso e provocaria um enfraquecimento do texto. Como a senhora vê isso?


Heloísa Buarque de Hollanda - Vejo a mistura de ficção e realidade, existente na obra de Bernardo de Carvalho, como a expressão de nosso cotidiano mais corriqueiro, que se encontra inserido, de forma irreversível, na cultura do espetáculo e do simulacro o que, do meu ponto de vista, fortalece ainda mais o texto de Nove Noites.

Carlos Willian Leite – A queda vertiginosa do nível intelectual dos escritores fez com que surgissem fenômenos como Paulo Coelho; qual sua opinião sobre ele e sobre o amesquinhamento da linguagem observado na última década?


Heloísa Buarque de Hollanda - Não há dúvida de que entramos numa sociedade de mercado. E nesse quadro a existência e o sucesso de autores como Paulo Coelho e inevitável. Querendo ser otimista (um velho traço meu), olhada da perspectiva do nosso mercado editorial, infelizmente ainda tão frágil, esse tipo de obra pode até ser avaliada como positiva.

Francisco Perna Filho – Ainda no aspecto da representação, olhando pela ótica aristotélica, é possível se falar em ética na poesia?

Heloísa Buarque de Hollanda - Acho que não só se pode, como nesse momento Bush, deve-se.

Carlos Willian Leite – O Rodrigo Petrônio disse que a maior parte da obra do Paulo Leminski oscila entre o fraco, o muito fraco e o péssimo. E que o romance Catatau é uma arapuca para otários. Concorda com ele?


Heloísa Buarque de Hollanda - Concordo não. Com o tempo foi ficando claro para mim que não há só uma régua para se medir o valor e a qualidade da produção artística. Leminski até hoje mobiliza um público de leitores jovens e não tão jovens, certamente porque expressou de forma bastante eficaz o ethos de seu momento geracional e político.

Tainá Corrêa – Me perdoe, até porque sei que já te perguntaram isso – mas o Bruno Tolentino é realmente necessário à poesia brasileira?


Heloísa Buarque de Hollanda - Eu não li o Bruno Tolentino então não posso responder a essa pergunta.

Carlos Willian Leite – Ainda existe vanguarda?


Heloísa Buarque de Hollanda -No sentido das vanguardas históricas dos anos 20 e 50, acho que não. Mas no sentido da expressão de um desejo radical de transformação da arte e da sociedade acho que sempre vai existir. Essa não morre nunca.

Tainá Corrêa – Quem foi o maior poeta marginal?


Heloísa Buarque de Hollanda - Carlos Drummond de Andrade, sem sombra de dúvida.

Francisco Perna Filho – Sendo a poesia um produto de difícil consumo, tanto do ponto de vista intelectual, quanto da acessibilidade (preços elevados dos livros). As antologias seriam uma boa saída para formação de novos leitores, apesar de elas provocarem um empobrecimento ao não permitirem um conhecimento mais aprofundado sobre o poeta ali representado?


Heloísa Buarque de Hollanda - É difícil responder a essa questão porque existem muitos tipos de antologias com projetos editoriais diferentes. Então falar de antologias de foram geral é muito complicado. Existem as antologias de grupos ou movimentos literários que marcam território (e algumas até tornam-se obras clássicas), existem aquelas de intenção político-literário que é a de intervir no debate intelectual que é a que eu faço, existem as facilitadoras, que reúnem “as mais belas poesias de todos os tempos” que são interessantes como divulgação e formação de leitores (que, quem sabe, passarão a ler os poetas por si), e tantas outras. O que acho interessante no gênero antologia é quando ela assume seu caráter autoral, não representativo, de montagem arbitrária, de trabalho de crítica literária (como a organizada por Manuel Bandeira, belíssima).

Carlos Willian Leite – O que sobrou do concretismo?


Heloísa Buarque de Hollanda - Pelo menos 40% do que é feito hoje.

Tainá Corrêa – Qual a distancia entre intertextualidade e o plágio?


Heloísa Buarque de Hollanda - a Tainá sempre faz perguntas provocativas. E eu gosto delas. Acho que nesse momento de crise da legislação dos direitos autorais, do debate sobre o creative commons, uma legislação que flexibiliza a proteção autoral na direção do suporte para criadores coletivos, ou como é mais conhecida para a “pirataria criativa”, que se propaga cada vez mais especialmente na música e nas vanguardas das artes plásticas, o assunto se desloca para a pergunta: até onde a própria noção de autor vai se sustentar nesse misterioso século XXI.

Francisco Perna Filho – A senhora, pelo representativo papel que exerce e pela respeitabilidade granjeada ao longo desses anos como Professora e Crítica Literária, ao propor um espaço para poesia marginal nas antologias que organizou, possibilitou também que essa poesia fosse inserta no espaço da crítica, tornando-a aceita. A senhora acha que é esse um dos caminhos para nova crítica?


Heloísa Buarque de Hollanda - A crítica tem seu poder no campo intelectual. O uso desse poder não pode ser (e raramente o é) inocente.

Carlos Willian Leite – Na introdução da antologia Esses Poetas, você diz que há uma tendência a minimizar atritos por parte dos poetas, que essa geração é mais da negociação e da articulação, por quê?


Heloísa Buarque de Hollanda - Porque essa é a forma de se fazer arte e política nesse momento no qual o “inimigo” está um pouco em toda parte, onde as forças artísticas, políticas e econômicas estão mais dispersas e flexibilizadas, onde, portanto, a estratégia do confronto tem pouca eficácia.

Tainá Corrêa – Como está sua editora – a Aeroplano?


Heloísa Buarque de Hollanda - O nome da minha editora foi escolhido como homenagem ao poema “Aeroplano” de Luiz Aranha, publicado num número da Klaxon, porque expressava o fascínio com os sinais de futuro. E é por aí que formato minha linha editorial. Um compromisso com as tendências, com os novos debates, com o registro dos pontos de mudança na série cultural. Então eu adoro esse trabalho. Mas infelizmente essa linha editorial não dá lucro e eu não posso viver da editora…

Carlos Willian Leite – Alguém disse que o Francisco Alvim foi uma farsa criada pela Folha de São Paulo e que ele seria o Jeca Tatu da poesia brasileira. Qual a sua opinião sobre o poeta diplomata?


Heloísa Buarque de Hollanda - Acho o Chico um grande poeta moderno, dono de uma linguagem poética de fina ironia que conseguiu, em sua geração, mais do que qualquer outro, captar as nuances de seu tempo.

Carlos Willian Leite – Quais poetas compõem a sua estante?


Heloísa Buarque de Hollanda - Drummond, Manuel Bandeira, Cabral, Murilo Mendes, Joaquim Cardozo, e, a partir dos anos 70, praticamente todos os que foram lançados.

Tainá Corrêa – O jornalista americano Michael Kepp disse, em artigo recente, publicado pela revista Super Interessante, que existe um endeusamento epidêmico de Chico Buarque. Qual é sua opinião sobre o livro Estorvo e o que separa o compositor do escritor?


Heloísa Buarque de Hollanda - É uma vergonha, mas não li o Estorvo.

Carlos Willian Leite – Como é carregar o peso do sobrenome Buarque de Holanda?


Heloísa Buarque de Hollanda - Nenhum. Me sinto muito feliz em participar desse clã que tantas colaborações importantes deu à cultura brasileira.