quinta-feira, 1 de abril de 2010

Francisco Perna Filho - Ensaio Curto


Qua me stultitia insanire putas?*


Por Francisco Perna Filho



Natural é ser diferente, poder dizer o que se sente, o que se pensa; fugir dos lugares comuns, sondar o próprio abismo existencial e comungar com os seus pares, com a aflição do mundo, com o dilúvio de ausências e não responder ao chamado dos manipuladores. Eis um traço de insanidade que muitos carregam, mas poucos conseguem alimentar o seu desconserto diante do mundo.

Os loucos atendem aos chamados interiores, dizem não à exterioridade. Não refletem o tempo, ousam; não alimentam esperanças, vivem; não se prendem a nada, celebram. São defensores da vida libertária e plena. As suas mentes são as suas sentenças. O medo não existe, a distância é inócua. O vício não tem cabresto. Eles, os loucos, avolumam-se como caixas empilhadas, são muitos, são múltiplos, apesar de tudo isso, ou por serem assim, são ternos, mesmo que não saibam.

A loucura está mais presente no mundo do que se pensa, manifesta-se no mais recôndito dos seres, na hora imprecisa, não tem cerimônia, não se atrela a nada, basta que algo que desconhecemos a motive e, deliberadamente, ela nos chega, toma conta, desconserta, desestabiliza e, por ser assim, muitos não conseguem divisá-la, não compreendem a sua linguagem, o seu discurso.

Somente os loucos, os leves de espírito, os pensadores, os poetas, os artistas e, lógico, os psiquiatras e psicólogos (nem todos, claro!)conseguem conviver com ela. Erasmo de Rotterdã lhe dedicou um belo ensaio: Elogio da Loucura; Michel Foucault escreveu A História da loucura; Cervantes, magistralmente, criou um dos personagens mais maravilhosos e insanos da literatura universal: Don Quixote, O cavaleiro da triste figura; Machado de Assis,em O Alienista, nos brinda com Simão Bacamarte e a sua Casa Verde; Fernando Sabino, seguindo a modalidade picaresca, também aborda o tema, em O Grande mentecapto, Sem falar na genialidade, inexplicável, de Fernando Pessoa, com seus heterônimos, com sua loucura literária e o seu desassossego:“toda a sinceridade é uma intolerância. Não há liberais sinceros. De resto, não há liberais.”

Todos eles, pensadores e artistas, especularmente refletem o seu tempo, os seus pares, os seus anseios. Traduzem a natureza humana e o abissal caminho que percorrem. Convivem com a fúria humana, com a aparência das coisas e as suas manifestações.

Se ser louco é rebelar- se, ser são é mover-se socialmente. É buscar o equilíbrio, é apascentar os lobos da discórdia, analisando os possíveis passos que se vai dar. Ser paciente e ser compreensivo, é olhar com profundidade os acontecimentos. É ser paciente e obediente e adaptar-se às mais variadas situações do dia-a-dia, aos absurdos presenciados nas ruas, nas repartições públicas, em todo tipo de descaso para com o cidadão, na relação diária com os seus pares.

Ser são é aceitar ser governado por incompetentes, é dizer que Michael Moore é um pensador, que essa porcaria que é veiculada nas emissoras de rádio é música, que o conceitual, nas instalações absurdas, é arte; que candidatos prestam contas ao tribunal eleitoral, que o Carrefour vende barato e que as universidades públicas são para pobre.

Ser são ou não, eis a questão! A rima é pobre, mas a questão é séria: de que lado estamos? De que lado você está? Nada melhor do que se olhar no espelho, se você for diferente...

* “De que loucura julgas tu que eu sofra?”

Imagem: Stultifera Navi, de Sebastian Brant.