segunda-feira, 19 de abril de 2010

Brasigóis Felício - Ensaio Crítico


Noiva da água


Por Brasigóis Felício


Faz alguns anos que Yêda Schmaltz fez a passagem para a eternidade – aqui e alhures, pouco ou nada dela, mesmo sendo uma voz tão exponencial na poesia brasileira feita em Goiás – fato reconhecido em nível internacional, mesmo não tendo a poetisa entrado no circuito das editoras de renome. Também pudera! Em nosso tempo soterrado pela mediocridade, só se destaca e tem espaço o que é mundano, frívolo, trivial ou superficial. Tenho em minhas mãos o seu livro Noiva da água, publicação póstuma das editoras Kelps/UCG. A poetisa preparou esta obra com especial zelo, para comemorar seus 40 anos de lides e lutas com a palavra – labor criativo a que se entregava, mal rompia a manhã, mesmo sabendo ser esta a luta mais vã. Não deu para comemorar, nem tocar em frente sua produção tão robusta e tão incessante que chegava a afogá-la, em oceanos de metáforas, e inspiradas palavras de seu inesgotável arsenal poético.

Yêda Sahmaltz, que era terra até nas veias da alma, noivou com a água, nirvanou, entrou em núpcias com o Absoluto. No dizer de Nelly Novaes Coelho, “a noiva se tornou esposa”. Casou-se, enfim, com o amado, a amada consciência crística, que esteve sempre presente em sua alma mística, em seus estudos de mitologia, nos profundos mergulhos na alquimia e na sombra da persona (máscara), sobre que tanto falamos, em nossas conversas e trocas de textos sobre a obra de C.G. Jung e Joseph Campbell. De seu livro Noiva da água: “Alguém chegou à praia e viu seu nome./Alguém chegou à praia e viu seu nome na areia, em letras grandes/Alguém chamou outra pessoa para ver o nome à beira do oceano./Era só isso:um nome escrito,/o mar, espumas e montanhas,/no exato momento em que Copacabana/e o céu ardiam as primeiras luzes./”.

Quanto tempo medido em meses, anos, se passou, desde que a poetisa saiu do bairro Feliz, para a última viagem a São Paulo. Parece que foi ontem, mas fluíram vários janeiros dos dias de susto de viver, em que os médicos lhe disseram que tinha um vaso no cérebro prestes a rebentar. A poetisa saiu da sua casa da poesia (vizinha à casa do milho) para não mais voltar. E bem que desejava voltar para seus filhos, seus amigos, e a poesia, arte que amava e ela por ela amada.

Estranha ironia: Yêda passava por um surto criativo de tirar o fôlego. Escrevia vários livros ao mesmo tempo, mantendo intenso contato com poetas do país e do mundo, via internet. Não teria sido neste excesso de trabalho que se afogou? Ela mesma alude ao fato, em poema de seu último livro:”Não consigo conter estas palavras/que me vêm como oceanos./Esta casa repleta de palavras/ e cercada/eu nadando aqui dentro/como num sonho- afogada”. E, mais adiante: “Vou atravessando as palavras/desta casa, vou nadando/Elas é quem mandam/(...) e continuarão mentindo/descaradamente/e isto continuará para sempre/e isto continuará me espantando/”.

Sim, palavras, mesmo belas e poéticas, podem mentir e espantar, ofuscar a visão da luz essencial que as inspirou.Como escrevi, em meu livro Hotel do tempo: Para que escrever tanto, Brasigóis?Acaso não esqueceste de amanhecer, e viver? Há muita beleza a se ler – e a viajar – neste Noiva da água, legado poético Yedeano. Ao final do livro, depois de viajar por mares que navegou (ou imaginou), confessa que o seu mar é o cerrado:”Se eu abrir esta janela agora/verei mongubas e paineiras,/nenhuma pedra ou montanha:/árvores baixas, retorcidas, parecendo um sofrimento/Verei águas azuis e doces,/sem balanço/e um sol, um sol de tudo, um sol rei – Se eu abrir esta janela agora/enxugando com as costas da mão o suor da testa/ de certa forma, apertando os olhos, me verei:/ é assim o mundo que eu entendo e gosto – meu mar salgado é no meu rosto/”. Mesmo sabendo que Yêda viajou para o mar absoluto para onde todos iremos um dia, não resisto à confissão: saudades de sua fraternura, do sorriso e da alegria da querida amiga e grande poetisa!


Imagem retirada da Internet: Yêda Schmaltz