segunda-feira, 15 de março de 2010

César Moro - Poema








(1903 - 1956)







Vens na noite com a fumaça fabulosa de tua cabeleira


Apareces
A vida é certa
O cheiro da chuva é certo
A chuva te faz nascer
E bater à minha porta
Oh árvore
E a cidade o mar que navegaste
E a noite se abrem a teu passo
E o coração volta de longe a mostrar-se
Até chegar à tua frente
E ver-te como a magia resplandecente
Montanha de ouro ou de neve
Com a fumaça fabulosa de tua cabeleira
Com as bestas noturnas nos olhos
E teu corpo de rescaldo
Com a noite que regas em porções
Com os blocos de noite que caem de tuas mãos
Com o silêncio que prende à tua chegada
Com o transtorno e o marulho
Com o vaivém das casas
E o oscilar de luzes e a sombra mais dura
E tuas palavras de avenida fluvial
Tão logo chegas e te foste
E queres pôr a flutuar minha vida
E apenas preparas minha morte
E a morte de esperar
E o morrer de te ver longe
E os silêncios e o esperar o tempo
Para viver quando chegas
E me rodeias de sombra
E me fazes luminoso
E me submerges no mar fosforescente onde acontece teu estar
E onde apenas dialogamos tu e minha noção escura e pavorosa de teu ser
Estrela desprendendo-se no apocalipse
Entre bramidos de tigres e lágrimas
De gozo e gemer eterno e eterno
Consolar-se no ar rarefeito
Em que te quero aprisionar
E girar pela pendente de teu corpo
Até teus pés cintilantes
Até teus pés de constelações gêmeas
Na noite terrestre
Que te segue acorrentada e muda
Trepadeira de teu sangue
Sustentando a flor de tua cabeça de cristal moreno
Áquario encerrando planetas e caldas
E a potência que faz com que o mundo siga em pé e guarde o equilíbrio dos mares
E teu cérebro de matéria luminosa
E minha adesão sem fim e o amor que nasce sem cessar
E te envolve
E que teus pés transitam
Abrindo marcas indeléveis
Onde se pode ler a história do mundo
E do porvir do universo
E esse ligar-se luminoso de minha vida
à tua existência.



Tradução de Floriano Martins.
In. Poesia Sempre. Nº 28, ano 15 Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, 2008, p.29-30.
Imagem retirada da Internet: César Moro