sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Célio Pedreira - Poema

Este poema foi escolhido, pelo Ministério da Saúde, para ilustrar o livro "Saúde da Família: um retrato". Parabéns ao poeta tocantinense, de Porto Nacional, Célio Pedreira!









CANTIGAS DE ANDAR JUNTO


De onde ainda nem chegamos

acende o zelo de ser único

na vontade de todos.

Ver de frente

o que acende

para espalhar mais alvos.

Como cada um

ser junto na astúcia de entender

caminho e rumo.

Cada estreito nosso

há de alcançar os vãos

num fazer de espalhar lugares.

E onde chegar

serão árvores nossas mãos

de uma raiz só.

Dessa raiz que rompe

que remove o lugar

e que aprofunda em longes .

Como horizonte fosse igual andar

sustentamos-nos em cada olhar acendido

em cada vontade de alcançar-se.

Assim os gestos vão gestando os vãos

como meninos nas varandas

olhando para além dos muros.

Posto que aqui sempre é tempo

de sonhar para mais

o que seja regar e brotar.

Segue assim espalhando luz

o que vela

e o que singra.

Nem parece mesmo longe

o que o caminho estreita

pelo carecer sincero de ir.

Vê que é grande uma manhã

nelas duram muitas claridades

apesar de ímpares.

Uma manhã tem feitio de bandeira

a nos significar

em pares.

Se a gente vai

nossa bandeira é sempre frente

onde se vai chegar.

É nossa vontade quem chega primeiro

quando o caminho nos junta

no continuar andando.

Mesmo o grande dos nossos estreitos

é um caminho só

nas mãos de nosso rumo.

e arranjar um diverso inesperado

paciência é remédio absoluto

para o encontrar-se.

Esses artifícios de andar junto

carecem mesmo paciência

e as vezes alguma ciência.

Até o êrmo pode ser perto

se o caminho é certo

no rumo do junto.

E quando menos parece

aparece outro hoje

e a gente toma um novo mesmo tino.

É assim mesmo diverso

o caminhar do esperança

dia ensina dia aprende.

No fundo esperança é vontade

de andar junto

ainda que distante.

Tecendo fios longos

numa mesma renda

a gente entende os muitos.

Pois o tempo de recomeçar

é um tempo inteiro

ainda que também único.

Como tempo de flor

chamando o dia para abrir

aqui o zelo é quem governa o caminho.

Pois se o dia abrir com zelo

é certa a flor

visitando nosso rumo.

Ao menos aos pares

é permitido combinar

o único no diverso.

Combinar que a estrada segue

e tem gente esperando

para receber nosso passo.

Passar o passo é quase um parto

tem merecimento de mutiplicar-se

como aquelas manhãs paridas.

É que os limites

as fronteiras

são também caminhos.

E o caminho mais árduo

é o rumo de dentro da gente

que precisa chegar no outro.

O outro é quem nos sustenta

é quem nos faz caminho

é quem nos caminha.

Segue cada um

como caravana de todos

para se juntar num canto da chegada.

Toda porta vai se abrir

toda janela vai espiar

cada chegar desse rumo.

Rumo ungido em singelo

em simples

que se agradece como amém.

Recebe esse simplicidade

que todo chegar encerra

e que espiga de boa nova.

A gente que anda junto

sempre está pronto para acender

uma nova chama de guia.

Deixar a chama nos lumiar

para seguir junto

nas horas de sós.

Vê que seus olhos são meus

e busca um entender em sede

pois os ávidos são sempre fecundos.

Como é infinito o andar juntos

a cantiga junta sempre se afina

pois cada passo o mesmo compasso.

Para quem escuta o canto do junto

se distingue o passarinho pelo olhar

o canto é só artifício de beleza.

A gente lembra da gente

quando nos dão motivo de andar

e reconhece o quanto falta pra chegar.

Se chegar a hora de fazer outro ir

o que se deixa vai com a gente

o olhar de quem fica vai com a gente.

Nosso rumo é mesmo preso ao sol

que precisa estar sempre estendido

para romper as nódoas.

Se nosso andar dispersar

a lição das pontes entre nós

é capaz de novamente nos juntar.

Riso é mais que alegria entre nós

é o remédio que nos faz iguais

num caminho de diferenças.


In.Saúde da Familia: um retrato. Brasília: Ministério da Saúde,2009