quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Valdivino Braz - Poema




Valdivino Braz












AS MANGAS


Entre as mais fibrosas,
de preferência a Sabina,
com suas sardas;
a pele com azinabre de cobre
e ferrugem de lâmina.
O dentro doce quando mordido,
e logo ácido na língua.
O sabor da Sabina se sabe
na primeira lambida,
mas temporona é azeda,
madura demais é urina.

Das menos fibrosas, a Bourbon,
com nome de nobre,
mas que não engana:
o que tem de bom tom,
é um quê de cigana.

A Manga-rosa, a mais sensual,
escandalosa - Scandal Rose -,
a mais fêmea do mangueiral:
polpa farta, carnal,
um cheiro que excita e reporta
secretas impregnações
nas mucosas da boca.
Tem gosto de boca almiscarada,
de beijo obsceno,
e parece peito de mulher inesquecível.

A Coração-de-Boi - que coração!
É a manga das paixões e dos suicídios.
Tudo cabe num coração maior que tudo.

A Manga-Espada é óbvia: um porte afiado.

E todas essas as mais saborosas,
de melhor essência.
As demais são comuns,
entanto comíveis, ou chupáveis.

A tal de Coquinho, a mais desenxabida,
e muito enxerida no meio da meninada.
Não é à toa o nome que tem:
Coquinho é alcunha de mulher qualquer,
uma de todos e de ninguém.






In. A Dança do Intelecto. Valdivino Braz. (Coleção Caliandra de Prosa e Poesia)Goiâniap: Prefeitura de Goiânia/Kelps, 1996, p.: 104-105.
Imagem: Mangas