domingo, 25 de outubro de 2009

Rainer Maria Rilke - Carta




SER OU NÃO SER POETA







Hoje, prosseguiremos com a segunda parte desta belíssima carta de Rainer Maria Rilke: Cartas a um Jovem Poeta, em que ele explica ao seu jovem correspondente o que entendia por verdadeira vocação poética. Tenham todos uma bela leitura!








"Voltar-se para si mesmo e sondar as profundezas de onde provém a sua vida: nessa fonte encontrará resposta à pergunta se deve criar."







(...)




Se a vida cotidiana lhe parece pobre, não a culpe: culpe a si mesmo. Diga consigo que não é bastante poeta para descobrir-lhe as riquezas. Para os criadores, não há pobreza, nem sítios pobres, indiferentes. E mesmo que estivesse numa prisão, cujas paredes não lhe deixassem chegar aos ouvidos os rumores do mundo, não lhe restaria sempre a infância, essa riqueza preciosa e imperial, essa arca de lembranças? Volte para ela a sua atenção. Procure trazer à tona as sensações submersas desse vasto passado: sua personalidade se afirmará; sua solidão se engrandecerá, convertendo-se num retiro crepuscular, perante o qual desfilam, distante, os ruídos do mundo. E se desse regresso ao interior, desse mergulho no mundo que lhe é próprio, surgirem versos, não pensará em perguntar a ninguém ser tais versos são bons. Tampouco lhe importará que as revistas se interessem ou não por seus trabalhos, pois verá neles uma valiosa possessão natural, um fragmento e uma voz de sua vida. A obra de arte é boa quando criada necessariamente. Na própria forma da sua origem está implícito o seu julgamento: não há outro.Eis por que, prezado senhor, sei dar-lhe outro conselho,além deste: voltar-se para si mesmo e sondar as profundezas de onde provém a sua vida: nessa fonte encontrará resposta à pergunta se deve criar. Aceite a resposta como ela vier, sem dar-lhe interpretações sutis. Talvez se evidencie que foi chamado a ser artista. Então, aceite tal destino e cumpra-o, com seu peso e a sua grandeza, sem indagar jamais de recompensa que possa vir de fora. Pois o criador tem de ser um mundo para si próprio, e achar tudo em si e na Natureza a que se incorporou.

Todavia, depois dessa descida ao seu mundo e à sua solidão interior, talvez tenha de renunciar a chegar a ser poeta (basta sentir, como já disse, que possamos viver sem escrever para que não nos seja permitido escrever). Mesmo assim, esse recolhimento que lhe aconselho não terá sido em vão. A partir de então, sua vida encontrará caminhos próprios. Que sejam bons,ricos e amplos, é o que desejo, embora não saiba dizer-lhe quanto.

Que poderei acrescentar? Parece que dei a tudo a ênfase necessária. Em suma, só quis aconselhar-lhe que se adiante grave e tranquilamente na sua evolução; perturba-la-á profundamente sem fixar os olhos no exterior ou se dele esperar respostas e perguntas que só o seu sentimento íntimo, numa hora de extremo silêncio, quiçá possa responder.

Foi para mim uma alegria encontrar em sua carta o nome do Senhor Professor Horacek; tenho por esse amável sábio uma grande veneração e uma gratidão que duram há anos. Quer, por favor, falar-lhe desse sentimento meu? É muita bondade dele ainda lembrar-se de mim; sei o quanto vale isso.

Devolvo-lhe os versos que amavelmente me confiou. E uma vez mais agradeço-lhe a cordialidade e a magnitude da sua confiança, de que procurei fazer-me um pouco mais digno do que na realidade o sou (dada a minha condição de estranho senhor) mediante esta resposta sincera, escrita o melhor que soube.

Com todo afeto e interesse,


Rainer Maria Rilke



In.Grandes Cartas da História.Organização de José Paulo Paes.São Paulo: Cultrix, 1969,p.190-193.