segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Raul Bopp - Poema


Depois de uma rápida passagem pelo erotismo de Hilda Hilst, vamos resgatar um dos nossos maiores poetas: Raul Bopp. Além do seu poema mais famoso: Cobra Norato, ele nos legou inúmeros outros poemas, como este: Princípio. Amanhã falaremos mais sobre Bopp. Boa Leitura!








Princípio




No princípio era sol sol sol
O Amazonas ainda não estava pronto
As águas atrasadas
derramavam-se em desordem pelo mato

O rio bebia a floresta

Depois veio a Cobra Grande Amassou a terra elástica
e pediu para chamar sono
As árvores enfastiadas de sol combinaram silêncio
A floresta imensa chocando um ovo

Cobra Grande teve uma filha. Ficou moça
Um dia
ela disse que queria conhecer homem
Mas não encontraram rasto de homem

Então
começaram a adivinhar horizontes
e mandaram buscar de muito longe um moço

Ai! que houve festa na floresta!

Mas a filha da Cobra Grande não queria dormir com o noivo

porque naquele tempo não havia noite
A noite estava escondida atrás da selva
dentro de um caroço de tucunã
Ah! então vamos buscar o tucumã
pra dar de presente de casamento

Veio o Sapo Jabuti veio também
O Cameleão estava esperando sono
A Onça não pôde vir porque tinha emprestado os sapatos

Andaram Andaram

As vozes iam na frente procurando caminho

Desembarcavam árvores Raízes furavam a lama
a floresta crescia

Chô que depois de muito andar chegaram

- Esta é que é a noite?
- Será mesmo a noite?
- Ah! não acredito

Então vamos espiar o que tem dentro

Quando abriram o caroço
houve um estouro imenso
que cobriu tudo de escuro

A floresta inchou
Árvores sairam correndo
Um pedaço da noite entrou na barriga do Sapo.

Então
a filha da Cobra Grande pôde fazer dormezinho com o noivo.



In. Cobra Norato e outros poemas. 13ª ed.Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1984, p.93-94.
Imagem:O Ovo ou Urutu (pertence ao acervo de Gilberto Chateaubriand http://www.tarsiladoamaral.com.br/images/JPG/Ovo50.jpg