quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Memória - Crônica de Francisco Perna Filho





Os olhos que me olham





As cidades são mágicas, carregam segredos e histórias, depositárias de sonhos e esperanças, estão sempre abertas para quem deseja explorá-las. Confesso que não é tão fácil assim conhecê-las. É preciso ter sensibilidade, tempo e coragem. É preciso estar aberto para o velho e para o novo; resistência para perscrutar becos e ruas, ladeiras e solidões.


Imagine as pessoas que nelas vivem, uma mistura de raças, credos e linguagens. Imagine os pontos de ônibus fervilhando de gente. Os cafés, os bares, os mercados, as feiras e algaravia que lá se forma. Imagine o olhar do pedinte e o semblante do arrogante ao negar-lhe o pão. Imagine uma brisa alegre, uma manhã de sol, um céu bem azul e límpido.


Pois é, foi assim que eu redescobri a Nova Suíça, bairro que conheci pelos idos de oitenta, mais precisamente em 1984, em companhia da minha grande amiga Luciene, quando fazíamos Faculdade de Letras, e eu era convidado a comer as deliciosas panquecas feitas por Dona Terezinha, sua Mãe, logo ali, na rua C-234.


O tempo passou, a casa da Dona Terezinha resiste intrepidamente ao assédio das grandes construtoras imobiliárias. Os vizinhos são desconhecidos, anônimos: coisas do concreto e da modernidade. Logo à frente, a tradição de se fazer uma fezinha no jogo do bicho perdura, a banquinha, ao lado da Panificadora Della, resiste. Enquanto houver sonho ela haverá de resistir.

A Praça Wilson Salles continua ali, circundada pelo comércio promissor de um grande bairro. Tem de tudo: açougue, panificadora, verdurão, supermercados, loja de pneus, concessionária de automóveis, locadora de carros, escolas. Tudo numa efervescência humana. Seres que se aglomeram para comprar, comer estudar e se divertir. Um lugar alegre e de muito progresso.


Andar pelas Ruas da Nova Suíça é sentir-lhe o tempo, as emoções, e uma certa nostalgia. Principalmente quando passamos pela Rua C-165, e avistamos a Escola Municipal Maria Thomé Neto, seu muro longo e chapiscado. Foi nesta escola, um dos meus primeiros empregos como professor. Caminho um pouco mais e, na Rua C-252, reencontro-me com a fé, pois ali está a Capela de Nossa Senhora Aparecida e Santa Edwirges, dos Padres Estigmatinos, onde o meu irmão casou-se, e muitas vezes o meu saudoso Sogro assistiu às missas tão bem celebradas. Bons Tempos aqueles! Acelero um pouco os meus passos, paro, olho para cima e começo a contemplar prédios de muita beleza, cada um trazendo a sua imponência nos nomes que ostentam: Ilhéus, Aldeia do Lago, Pontal do Lago, Miami Beach e tantos outros, contrastando com belas casinhas, que ainda conservam o gosto das tardes entre amigos, sentados nas suas portas.


Tudo passou muito depressa, a cidade cresceu, o bairro foi super valorizado, as pessoas se orgulham de dizer que aqui moram e que são muito felizes, apesar dos roubos e de alguns atos de violência, que não são exclusividade do nosso bairro, mas de todo país. A verdade é que as pessoas parecem viver em muita harmonia, buscando, no corre-corre de um dia longo, as respostas para uma vida curta, o sustento para a sobrevivência.


Já passa da meia noite, e aqui estou eu, na sacada do meu quarto, a contemplar a noite, o silêncio rompido por algum notívago, que costura a noite com os roncos dos seus motores. Um gato cruza a T-62, dá uma espichada, e chega ao Setor Bueno. Tudo muito engraçado, porquanto não sabemos que linha separa um bairro do outro, o amor do ódio, a vida da morte. Os meus filhos já estão dormindo; A minha esposa ensaia uma leitura. E eu, sob o olhar dos prédios, acabo de concluir esta crônica.