sábado, 5 de setembro de 2009

O Demônio da Mentira





Por Francisco Perna Filho









O Diabo é o Pai da mentira (João-8:44), e os seus seguidores são muitos, basta olharmos este país, nunca se mentiu tanto como agora. Mentiras de todos os tamanhos, para todos os gostos: palacianas, religiosas, cinematográficas, esportivas; verdadeiras ladainhas. E aí vem a pergunta: Se Deus de fato é brasileiro, andava meio distraído? fez-se de desentendido,por acreditar na redenção dos homens, mas vendo que tudo isso era impossível, resolveu deixá-los à própria sorte? Talvez! O fato é que mentira tem pernas curtas e, agora, não é de assustar tanta gente posando de saci, como diz um amigo meu: no xilindró.

Quem diria, até juiz de futebol mente, e mente raivosamente, mostrando o que ele tem de mais sagrado: a sua autoridade em campo, sem ficar, sequer, amarelo, vermelho; por isso é que o Zé Simão bradou: o povo sempre teve razão ao chamar o Juiz de Ladrão. Por estas e outras é que existe detector de mentira, uma máquina que, apesar da delação premiada, recurso recorrente, hoje, nos tribunais, continua revelando qual é onda mental dessa gente.

Mentir todo mundo mente. Mas, descaradamente, com temos visto, ultimamente, é assustador. E olhe que isto não é exclusividade do povo tupiniquim. Ela (a mentira) está presente em quase todos os lugares, para não dizer em todos, pois, onde há humano, há mentira, e como há humano, gente!. O problema não é mentir, é como se mente. Bem que uma mentirinha, por brincadeira, não faz mal a ninguém. Agora, mentir para maltratar, para se dar bem na vida, para não perder o posto, conquistado mentindo; mentir para destruir o próximo. Isto é inadmissível, inaceitável, abominável.


Deixassem os homens para mentir somente no 1º de Abril, as coisas não seriam tão feias. A propósito, neste dia, há muitos séculos, é que se iniciava o ano, só mais tarde, em 1564, é que Carlos IX, rei da França, por uma ordonnance de Roussillon, Dauphine, determinou que o ano começasse no dia primeiro de janeiro. Origens à parte, a mentira vem ganhando corpo, mente e alma. Alastrou-se pelo sertão, pelo litoral, pelos bancos e, quase nada se salvou, até as cuecas deram o tom da mentira, comportaram notas, de vestimenta a recipiente. Para quem não sabe, cueca vem de culus, do latim, que quer dizer: ânus - daí a merda que fez.

A mentira sempre foi tema para muitos pensadores, literatos, prosadores. Marcel Proust dizia: a mentira é essencial à humanidade. Nela desempenha porventura um papel tão importante como a procura do prazer, e de resto é comandada por essa mesma procura.* Anatole France, assim se manifestou: Gosto da verdade. Acredito que a humanidade precisa dela; mas precisa ainda mais da mentira que a lisonjeia, a consola, lhe dá esperanças infinitas. Sem a mentira, a humanidade pereceria de desespero e de tédio.* Já Francis Bacon, assim a ela se referiu: Não sei como dizê-lo, mas a verdade é uma luz nua e crua que não mostra as máscaras, as cegadas e os cortejos do mundo com metade da altivez e da graciosidade com que aparecem iluminados pelos candelabros. A verdade pode, talvez, atingir o preço da pérola que mais brilha durante o dia, mas não alcança o preço do diamante ou do carbúnculo que tanto mais brilham quanto mais variadas forem as luzes. Com a mistura da mentira mais se acresce o prazer.*

Pelo pouco citado, podemos perceber que este é um tema apaixonante, diz respeito a todos nós. Mentimos quando negamos a nós mesmos, à nossa identidade, às nossas origens, aos nossos gostos massacrados pela imposição dos meios de comunicação. Mentimos quando não enxergamos com os nossos olhos, quando somos preconceituosos. Mentimos para não ser rejeitados, para não “passar batido”, para não ser alijado. Mentimos quando votamos pelos nossos interesses, quando julgamos para ser bonzinhos, quando concordamos com tudo. Mentimos porque somos humanos e não falamos a verdade. Por que mentimos?



*- Anatole France, in 'A Vida em Flor'.
* - Marcel Proust, in 'A Fugitiva'.
* - Francis Bacon, in 'Ensaios - Da Verdade'.